Escola secundária – uma decisão para o resto da vida?

Entre novembro e fevereiro, as escolas secundárias alemãs abrem suas portas para a visitação. São os dias das portas abertas, conhecidos aqui como Tag der offenen Tür. Neste dia, o diretor põe sua melhor camisa, e os alunos mostram a sua escola para os interessados, com direito a aulas-teste, experimentos, apresentações musicais etc. E, por volta de março, abril do ano em que a criança finalizará a 4a. série,  os pais têm reuniões com a professora de classe do filho, para saber qual é a escola que ela indicará. Dependendo do estado, há uma recomendação formal, que deve ser seguida. Em alguns estados, os pais têm liberdade de decisão, em outros não.

Sistema de ensino alemão

Existem vários tipos de escolas secundárias na Alemanha. Resumidamente é mais ou menos assim:
1. Hauptschule – tendendo a ser extinta, vai até a 9a. série. Após o término, as possibilidades de cursos técnicos são limitadas.
2. Realschule – vai até a 10a. série. Habilita a freqüentar cursos mais adiantados em escolas profissionalizantes, escolas secundárias vocacionais ou o segundo ciclo do ginásio, Oberstufe.
3. Ginásio – vai até a 12a. ou 13a. série. O certificado de conclusão, o cobiçado Abitur (com várias provas englobando diferentes matérias), habilita para o acesso a uma universidade ou escola superior.
4. Gesamtschule (Gemeinschaftschule, em Baden Württenberg, por ex.) – vai até a 10. série e integra Hauptschule e Realschule, até mesmo ginásio.
5. Gymnasiale Oberstufe ou berufliches Gymnasium – alunos que costumam frequentar o Realschule ou Gesamtschule podem dar continuidade a seus estudos neste tipo de escola, a partir da 11a. série.

Interessante saber que em Berlim o ensino fundamental vai até a 6a. série, o que pode ser vantajoso, já que crianças amadurecem em tempos diferentes. Na Suíça também é assim. Dois anos na vida de uma criança podem fazer muita diferença na hora de escolher a escola secundária.

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O sistema é complicado para quem, no Brasil, só conhece uma única escola (ensino médio). O que muitos reclamam é que o futuro da criança meio que se define já com 10 anos de idade, mais ou menos. Alguns dizem que não há tanta rigorosidade e que existem pessoas que começam a Hauptschule, pulam para a Real e depois ainda fazem a Oberstufe do ginásio e terminam com o Abitur. Outros dizem que nem sempre o melhor caminho é a Universidade, já que existem muitas profissões de ensino médio cujos salários são bons e o mercado oferece uma gama variada de cursos profissionalizantes. E muitos afirmam que o ginásio não é uma escola para qualquer um e que muitas pessoas passam longos anos nele muito infelizes e sobrecarregadas, enquanto poderiam estar fazendo algo mais produtivo em suas vidas. Muitos pais tomam a decisão de colocar seus filhos no ginásio, justamente por terem medo de já tao cedo fecharem o leque de possibilidades para seus filhos. E isso também é compreensível!
Apesar da OECD acreditar que 75% dos estudantes tenham que cursar uma Universidade, é bom lembrar que a Alemanha é um dos países europeus que oferecem os melhores cursos profissonalizantes com altíssimas exigências. Não são cursos de curta duração e funcionam misturando a prática à teoria. Realmente tem que se analisar, se um técnico ou trabalhador braçal necessita obter sua qualificação em uma faculdade.

Recomendação para a escola secundária

A mudança de escola pode ser um momento muito angustiante, principalmente se o aluno não for um claro candidato ao ginásio. Segundo a Elternwissen, a nota média para ser aceito num ginásio é por volta de 2,3 (sistema de notas alemão: 1 a 6, sendo que 1 é 10 e 6 é 0, no Brasil). Crianças com boletins medianos ficam numa zona nebulosa entre ginásio e Real ou Gesamtschule. Para o Realschule a média gira em torno de 3 e abaixo disso a criança é claramente um candidato ao Hauptschule. Em alguns estados, a recomendação só pode ser burlada mediante processo na justiça. Em outros, o sistema não é tao rigoroso, então há pais que arriscam uma decisão não convencional. E há crianças que superam as expectativas, assim como há crianças que, depois de meio ano na escola, são convidadas a se retirar.

Minha opinião de mãe é que é necessário observar muito bem seu próprio filho e avaliar, se ele vai poder lidar com novos desafios, se terá a concentração e organização necessárias para um ginásio. Outra questão importante é saber avaliar, se os pais terão disponibilidade e condições de apoiar o filho na escola. Porque o sistema alemão é baseado no auxílio parental. Não dá para ignorar este fator: pais participativos, por dentro do que está acontecendo na escola, assumindo um pouco a função de professor do filho, auxiliando com dúvidas e estudo para provas, já que têm o background necessário para tal, podem fazer a diferença no desempenho escolar do filho. Fica difícil para, por exemplo, uma mãe sozinha, que trabalhe em tempo integral, suprir todas as necessidades que uma criança pode vir a ter num ginásio. Não quero dizer com isso que alunos nesta situação não possam dar conta da carga de estudos de um ginásio. Por outro lado, eu acho o sistema injusto e uma reforma nele seria muito bem-vinda. É muito comum ouvir dizer que filhos de quem tem nível superior costumam alcançar o nível superior e filhos de pessoas sem um diploma universitário por vezes estão fadados a conseguirem “apenas” um diploma profissionalizante. Sim, o sistema é elitista e pessoas que não seguem este esquema, sendo às vezes imigrantes da primeira geração, são vistas como uma grande exceção.

Burlar a recomendação para um Realschule, colocando o filho no ginásio, pode trazer até um trauma à criança, caso ela se sinta sobrecarregada e insegura na escola e tenha que mudar de escola após pouco tempo de adaptação. Pode ser que muitos discordem de mim, mas eu acredito que exercer uma pressão extrema sobre seus filhos pode gerar uma série de problemas no futuro, para os quais as famílias às vezes nem estão preparadas. Há obviamente algumas exceções. Acompanhei alguns casos aqui, nos quais a professora foi muito rigorosa na sua avaliação, a criança foi para um Gesamtschule ou Realschule e depois de 6 meses, estava achando tudo muito monótono. A mãe foi procurar um ginásio e, depois de 6 meses, frequentando a escola nova, a criança estava se sentindo em casa, acompanhando tudo muito bem.

Estatísticas

Segundo pesquisadores da área de educação, a mudança para a escola secundária é justamente  a maior mudança na vida de um estudante. Em outras palavras, as estatísticas mostram que uma pessoa com um nível de ensino mais baixo tende a se encontrar na parte inferior da pirâmide social, no que tange salário, status social, liberdade pessoal, reconhecimento e condições de trabalho. Pessoas com nível educacional alto são, na média, mais saudáveis, necessitam de menos auxílio psiquiátrico, se divorciam com menor frequência e a estatística continua para os descendentes destas pessoas: mais saudáveis, com mais sucesso profissional, mais, mais, mais…

Estatisticamente falando, 1/3 dos filhos cujos pais têm um nível de ensino mais baixo, frequentam um ginásio. Para os pais que têm o Abitur são 2/3 das crianças que conseguem frequentar este tipo de escola.

Mudanças de escola secundária acontecem, na maioria dos casos, só para baixo (do ginásio para o Real ou Gesamt, do Real para o Haupt, por exemplo). Uma “subida” nesta escada escolar só ocorre 4 vezes menos que uma “descida”, segundo o  „Chancenspiegel“ da Bertelsmann-Stiftung. Isto mostra que muitas crianças estão na escola errada, infelizmente.

Escola integral

O esquema de escola integral está cada vez mais difundido na Alemanha. Em alguns estados, ele já está bem sedimentado, como em Rheinland-Pfalz ou Thüringen. Estima-se que existem atualmente por volta de 6.500 escolas que funcionam em tempo integral, oferecendo almoço e pelo menos 3 tardes com atividades. Segundo um estudo da Bertelsmann, 1/3 das crianças alemãs frequentam escolas integrais.

Mas a Alemanha ainda tem muito chão pela frente, se compararmos com o vizinho francês, onde todas as escolas funcionam em tempo integral. O sistema francês é organizado de forma que as mães possam trabalhar desde cedo. Na Alemanha, ainda é comum mães não trabalharem ou terem apenas um trabalhinho básico, cujo salário é insignificante. Obviamente que o sistema de ensino alemão produz este impacto na participação da mulher no mercado de trabalho.

Aqui os Kindergarten suprem melhor o apoio à família, com crianças até os 6 anos, oferecendo diariamente vagas integrais com direito à almoço e lanche, enquanto as escolas deixam a desejar. Por exemplo, em Hessen, é comum a escola “primária” ter um horário de 8:15h às 11:45h. Mães que trabalham imploram por uma vaga num grupo da escola (Kinderbetreeung) que atende crianças até talvez as duas da tarde ou procuram um Hort, que é uma instituição para atender crianças após o horário escolar até as 17:30h, por exemplo, cara e com pouquíssimas vagas. E há também escolas que funcionam até as duas da tarde sem almoço, o que eu considero algo absurdo. Uma criança ficar até esse horário sem almoço não pode ser produtivo para seu desenvolvimento. Algumas crianças recebem a chave de casa já bem novos, porque os pais não têm como pagar uma vaga num Betreuung ou Hort e têm que trabalhar. Algumas passam a tarde sozinhas ou com os amigos. Infelizmente o sistema não dá o amparo necessário para aqueles que trabalham.

Reestruturaçao do sistema à vista?

A criação dos Gesamtschule representa o primeiro esforço em integrar os diferentes tipos de escola  do ensino médio. A idéia é não separar os alunos por conta de seu rendimento, em escolas diferentes. Neste tipo de escola, ocorrem separações por cursos, conforme interesse e rendimento do aluno. O objetivo é fazer com que estudantes com diferentes rendimentos, bem como de diferentes classes sociais convivam harmonicamente. O mais fraco aprende com o mais forte e vice-versa. A diversidade é encarada como algo positivo.

Interessante é que na Alemanha Oriental, antiga DDR, já existia esta forma de escola, conhecida como Einheitschule, atendendo até a 8a. série. As primeiras Gesamtschule surgiram nos anos 60 e a intenção era avaliar por 10 anos, se este sistema poderia vir a substituir o atual. Infelizmente, a decisão se tornou política e dependente da definição dos governos de cada estado. Portanto, as escolas “experimentais” permaneceram, provavelmente por conta do investimento feito, mas a concorrência com as três outras escolas não deixou de existir.

Segundo o Max-Planck-Institut de pesquisa na área de educação, o rendimento escolar nos Gesamtschule é inferior ao do ginásio. Porém, cerca de 70% dos alunos que conseguiram o Abitur nos Gesamtschule não tinham recomendação para frequentar o ginásio. O que comprova minha teoria de que não ter recomendação para o ginásio não significa menos capacidade, ou até de que muitas crianças precisam de mais tempo para amadurecer no processo de estudar.

Segundo uma pesquisa da Forsa, 90% dos pais são contra eliminar o ginásio, portanto a tendência é que o sistema se desenvolva com dois tipos de escola: o ginásio tradicional e uma nova forma de escola que englobe as outras, sem eliminar a chance dos alunos de fazerem um Abitur. De acordo com muitos estudos comparativos, os ginásios e Realschule obtém melhores rendimentos que o Gesamtschule, o que coloca em xeque as razoes para a existência do mesmo. Pais engajados e financeiramente bem de vida, optam por alternativas de escolas particulares. Dez porcento das escolas secundárias são escolas “livres”, como Waldorf, Montessori ou Salem, além de escolas internacionais.

Há alguns anos, foi tomada uma medida para encurtar os anos de ensino médio, na Alemanha. Muitas escolas passaram a oferecer 8 anos de ginásio (G8). A crítica básica era que o alemão leva muito mais tempo para finalizar sua formação, comparado a estudantes de outros países europeus. Algumas escolas, porém, mantiveram os 9 anos (G9), considerados necessários para dar conta do currículo puxado do ginásio. Atualmente, tenho reparado que algumas escolas retrocederam na sua decisão e voltaram a oferecer os 9 anos de ensino, em grande parte, porque esta decisão acabou gerando pressão sobre os estudantes, para estudarem em 8 anos um conteúdo que seria dado em 9. Felizmente, pais e professores em quase toda a Alemanha, conseguiram pressionar o estado para a volta do famoso G9.

Existem iniciativas isoladas de modernização do sistema. Em Hamburgo, existem as escolas conhecidas como Stadtteilschule que concorrem com o ginásio. Os pais podem influenciar na decisão de escolha da escola, porém na sexta série um corpo de professores define o caminho do aluno. Para fazer o Abitur, no Stadtteilschule, o aluno leva 9 anos, enquanto no ginásio apenas 8. Em Berlim, não existe mais o Hauptschule e os Gesamtschule substituem o Haupt e o Real.

Inclusão

Muitos estados alemaes não se sentem capacitados a acolher alunos com necessidades de inclusão, em parte por falta de verbas. Outro problema é a escassez de professores, que gira em torno de 30.000 funcionários. O país ainda está muito distante de uma realidade inclusiva, mesmo sendo este um objetivo do governo, que é, generalizando, o acompanhamento pedagógico dos alunos com necessidades especiais em escolas normais, dando fim às escolas especiais. Por um lado, parece que este esquema iria até ser mais econômico, por outro, muitas escolas se dizem despreparadas, para lidar com a situação.

 

Quer saber como funciona a recomendação para o ginásio nos diferentes estados alemães? Visite o link Elternwissen.

Você quer saber mais sobre o tema Kindergarten? Kindergarten

fontes:
FAZ – Aufregung-um-den-Schulwechsel

Die Welt – Diese Bildungsreformen machen unsere Kinder dumm

Wikipedia – Gesamtschule

Wikipedia – Gemeinschaftsschule

Wikipedia – Bildungsreform

The European- Deutschland-braucht-eine-Bildungsreform

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