Dicas caseiras para os primeiros anos de vida

Por Karla Hannig

Principalmente nos dois primeiros anos de vida, é muito comum que as crianças passem por diversas fases de desconforto ou mesmo sejam alvos de doenças, já que o corpo ainda está trabalhando pra montar um sistema imunológico efetivo.

Ver nossos filhos sentindo dor, agoniados e sem muita energia nos deixa aquela sensação de impotência, sem saber que providências tomar. A regra que mais temos que repetir no “Mães Brasilieras na Alemanha” é a de não citar nomes de medicamentos. A razão dessa proibição é o simples fato de que todo e qualquer medicamento deve ser apenas utilizado após indicação médica. Drogas contém também efeitos colaterais e contra-indicações e não nos responsabilizamos pelo mal uso dos mesmos.  Portanto, se o seu filho está doente, procure um pediatra.

Entretanto existem também situações em que pequenas ajudas caseiras podem ajudar a aliviar determinados sintomas e algumas delas vamos revelar aqui.

Dentição

  • Massagens na gengiva: com as mãos bem limpas, faça pequenos movimentos na gengiva do bebê. A pressão ajuda a aliviar a dor.
  • Fralda molhada: dobre uma fralda de pano, formando uma “ponta” em uma das extremidades, molhe com água gelada e dê ao bebê. Morder a fralda geladinha alivia a dor.
  • Raíz de Íris (Veilchenwurzel): comprada em drogarias, esta raíz quando mordida fica macia, amortecendo a gengiva, além de liberar substâncias anti-inflamatórias e analgésicas ao entrar em contato com a saliva.

Cólica

Para realizer massagens contra cólica é aconselhável usar um óleo não refinado como o óleo de amêndoas (Mandelöl), a Weleda também tem um bom óleo para este fim (Bäuchleinöl), existe também o creme Windsalbe que contém cominho na composição.

  • Massagem em sentido horário na barriga: imagine um relógio ao redor do umbigo do seu bebê. Comece a massagem às 9h, descendo em sentido horário e termine o movimento às 6h. Esse movimento circular não completo transporta os gases para fora do intestino, já que sua saída está localizada entre as perninhas.

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  • Carregar o bebê em posição de aviãozinho: essa posição gera alívio no bebê, já que com a gravidade é feita uma certa pressão na barriga através do próprio peso do bebê contra a mão de quem o está carregando. Uma posição excelente pra colocar uma música relaxante no ambiente e tentar acalmar o bebê.

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  • Pedalar com as perninhas: segure com cada mão um tornozelo do bebê e em movimentos alternados levante a perninha até que a coxa faça pressão sobre a barriga. Pode também alternar esse movimento levando as duas perninhas de uma só vez até a barriga. Geralmente os bebês começam a liberar os gases.

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  • Colocar pra arrotar: existem muitos pediatras que afirmam que os gases que causam o arroto, não são os mesmos que causam os gases intestinais. Pelo sim ou pelo não, colocar pra arrotar alivia o desconforto do bebê e pode talvez evitar que esses gases permaneçam no sistema digestivo.
  • Compressa morna, lã ou saquinho de lã (Muckelkissen): o calor alivia desconfortos e muitos bebês ficam mais calmos com o uso dele em contato com a pele. Em drogarias se encontra o saquinho de semente de uva que pode ser esquentado para fazer compresas mornas. Por favor se certifique que não esteja muito quente para não queimar a pele do bebê. Outra opção é o Muckelkissen, um travesseirinho recheado com la, que aquece naturalmente. Na Alemanha costumam deixar esse travesseirinho dentro do body do bebê pro alívio contínuo. Esse travesseirinho pode ser substituido pela lã normal (Heilwolle), colocada entre a barriga e o body.
  • Carregar no wrap/sling/canguru: a posição em que o bebê fica dentro do canguru com as perninhas em M contribui pra liberação dos gases, além do contato pele a pele acalmar o bebê.
  • Chá de erva-doce, cominho e anis para a mãe que amamenta: para as mãe s que amamentam, é recomendado tomar em media 3 xícaras deste chá, que não só contribui na produção do leite, como ajuda na liberação dos gases do bebê.

Resfriado e tosse

  • Cebola: durante a noite, pique uma cebola, coloque em um pratinho e deixe este ao lado da cabeceira da cama/berco. A cebola não só libera propriedades expectorantes no ar, como purifica o ambiente e ajuda na descongestão nasal.
  • Massagem: em caso de secreção, deite o bebê de bruços e pressione levemente com a palma das mãos fazendo movimentos vibratórios na região dos pulmões com a mão em formato de conchinha para soltar a secreção.
  • Vapor: na hora do seu banho, leve seu bebê para o banheiro e deixe a água ficar bem quente, o vapor ajuda a descongestionar o nariz e a dissolver a secreção.
  • Levantar o colchão: bebês não sabem respirar pela boca e ficam bastante agoniados com o nariz entupido, o que piora quando deitados. Para aliviar a congestão nasal na hora do sono, incline o colchão na região da cabeça. Uma boa opção é colocar uns fichários ou livros por baixo do colchão.
  • Xarope caseiro: pique uma cebola, coloque em um vidro escaldado com tampa e cubra com acuçar. Leve à geladeira. Depois de umas 6 horas descansando, coe as cebolas e você ficará apenas com um excelente xarope natural. De 1 colher de chá 3x por dia. Acúçar deve ser considerado tabu para bebês, mas para fins terapeuticos, pode ser liberado como exceção. Para crianças mais velhas de 1,5 anos, substitua o acúçar por mel. Atenção! Não dê mel antes desta idade, por risco de botulismo.

Atenção: o uso de óleos essenciais como eucalipto e menta são tóxicos para crianças antes dos 6 anos, podem causar uma série de problemas respiratórios e falta de ar. Fuja dos preparados que contenham um dos dois, mesmo que sejam vendidos em farmácia.

Picada de mosquito

  • Pomada de calêndula: a pomada de calêndula da Weleda auxilia a cicatrizar a região das picadas.
  • Aloe-Vera / Babosa: corte uma folha da babosa e passe o gel encontrado dentro da folha nas picadas.

 

Febre

Febres causam sempre preocupação nos pais. Mas é muito importante encarar a febre não como uma doença em si e sim como uma forma do próprio corpo a lutar contra uma possível infeccção. A febre é portanto um mecanismo do corpo saudável de combater um vírus ou bactéria, já que ao elevar a temperatura muitos desses “inimigos” morrem. Se você baixar a febre sem necessidade, você estará impossibilitando o corpo de cumprir sua função.

Febre deve ser monitorada. Muito mais importante que a própria temperatura é verificar se seu filho está apático ou ativo. Uma criança febril, porém ativa é um bom sinal. Abaixo pode-se ter uma idéia de quando trata-se realmente de febre:

  • 36,5 a 37,5° Celsius: temperatura normal de uma criança saudável
  • 37,6 a 38,5° Celsius: temperatura elevada
  • A partir de 38,5° Celsius: febre
  • A partir de 39° Celsius: febre alta

Vá direto ao pediatra principalmente quando:

  • Bebês até 3 meses passam dos 38°
  • Bebês entre 3 e 5 meses passam dos 38,5°
  • Bebês ou crianças acima dos 6 meses passam dos 39°

Algumas dicas:

  • Hidratação: bebês e crianças com febre perdem muito líquido. Reponha esse líquido oferencendo líquidos que seu filho toma regularmente e já está acostumado como: leite materno, fórmula ou água.
  • Compressa fria: molhe toalhas com água fria (água normal da pia, não gelada) e coloque sobre as pernas, em casos de febre alta. Troque constantemente as compressas.

Assaduras

  • Amido de milho (Maisstärke): em um copinho coloque uma colher de sopa de amido de milho, acrescente aos pouquinhos água até virar uma pasta. Passe esta pasta como se fosse um creme contra assaduras.
  • Pomada de calendula: a pomada da Weleda ajuda muito em casos de assaduras.
  • Ar livre: deixar o bebê um tempo sem fralda acelera o processo de cicatrização, fazendo com que as assaduras desapareçam mais rápido.
  • Evite o uso de lencos umedecidos: estes são cheios de química e conservantes, causando assaduras em muitos bebês. Prefira o uso de água e toalhinhas ou algodão.
  • Chá preto: o chá preto tem propriedadees antiinflamatórias e antifúngicas. Faça um chá bem forte, deixe esfriar. Mergulhe um disco de algodão nele e coloque no local da assadura até a próxima troca de fralda. Repita o processo.
  • Lã (Heilwolle): a lã é rica em lanolina, que ajuda na cicatrização. Pegue um pedacinho da Heilwolle, coloque na região afetada e feche a fralda normalmente.

Atenção: caso desconfie de assadura causadas por fungos, procure um pediatra.

Diferenças entre creches no Brasil e na Alemanha

Por Lígia Birindelli Amenda em parceria com um coletivo de mães que vivem na Alemanha

Chegamos novamente na Alemanha há alguns meses. Embora já tenha morado aqui há um tempo, esta é a primeira vez que venho com meu filho e desde então estamos nos acostumando com a nova rotina. No Brasil, ele já frequentava a creche desde os 5 meses por conta da nossa pífia licença maternidade e, além disso, em virtude de vários problemas, tínhamos mudado de escola por duas vezes. Então, achei que estaríamos acostumados ao ingresso em uma nova creche, embora ele ainda não fale alemão.

Acontece que agora constatei que, para além do novo idioma, há várias novas circunstâncias as quais temos que nos adaptar. Em vista de tanta mudança, acabei percebendo várias diferenças entre creches no Brasil e na Alemanha. E é bem verdade que estou positivamente surpreendida, então, natural que este texto contemple os lados positivos do sistema alemão em comparação com os pontos negativos no Brasil. Não tenho a pretensão de ser imparcial e pode ser que esta visão um dia mude. Tomara que sim, inclusive!

 

1 – A NOMENCLATURA E A SEPARAÇÃO DOS GRUPOS

O nome “Jardim de infância” vem do alemão “Kindergarten”. Este conceito abrange a educação infantil de 3 a 6 anos. Contudo há alguns anos essas instituições passaram a receber também crianças de 1-3 anos (algumas recebem bebês com menos de um ano). Então, hoje, além do Kindergarten as creches contam também com o Kinderkrippe (berçário). Devido a esta mudança usa-se duas expressões para denominar as creches: KITA (Kindertagesstätte) que recebe crianças de 0-6 e funciona por mais de um período durante o dia (há em Berlim, inclusive, Kitas que funcionam à noite) ou KIGA (Kindertagesbetreuung) que atende crianças a partir de 3 anos e costuma operar por apenas um período (sendo mais comum estar aberto pela manhã). Mais informações podem ser encontradas neste site: www.kita.de/wissen/kinderbetreuung.

Em vista dessa separação entre o Kindergarten e o Kinderkrippe é comum encontrar creches por aqui que façam somente essa distinção no grupo de crianças. No KITA que meu filho frequenta hoje, por exemplo, ele está numa turma junto com crianças de 3 a 6 anos. Portanto, as crianças ficam mescladas em diferentes idades e não como no Brasil, onde as crianças são separadas por data de nascimento.

 

2 – A PROCURA

No Brasil, a escolha por uma escola está comumente envolvida com a classe social a qual os pais pertencem. Aqueles que têm condições financeiras de bancar uma escola costumam optar por uma escola particular. Todavia há exceções, pois dentre as creches públicas existem várias opções por vezes muito melhores que as particulares, mas isso depende da cidade a qual se vive (visto que a educação infantil é de responsabilidade exclusiva do munícipio) e do bairro onde se mora (às vezes os bairros mais caros possuem creches públicas melhores, por mais incoerente que possa parecer).

A minha experiência no Brasil está limitada a cidade de Curitiba, onde meu filho frequentou 3 escolas particulares, estas muito diferentes entre si: as duas primeiras com preços bem módicos e que não possuíam um linha pedagógica muito definida, e a terceira, uma creche excepcional, mas muito cara e que me incomodava por demais a presença exclusiva de crianças oriundas de classe média alta. Dentre os colegas que ele tinha nesta escola, acredito que meu filho era o único usuário de transporte público, por exemplo. Esse fator me incomodava porque a despeito do conceito construtivista que a escola propunha, eu sabia que ele estava imerso em uma bolha social muito distante da nossa realidade. Ou seja, a escola propunha o respeito à individualidade, mas não conseguia abrigar a diversidade. E, para mim, isso era muito contraditório em relação aos valores que entendo como fundamentais.

Mudamo-nos, então, para Hamburgo na Alemanha. Por aqui a forma como a educação infantil é oferecida também está atrelada à administração da cidade em que se vive, então reconheço que o sistema daqui pode ser bem diferente do resto do país. O fato é que em Hamburgo eu ainda não consegui identificar o que é creche pública e o que é privada. Talvez, inclusive, nem exista o conceito de creche estatal aqui. Há creches de bairro, há outras mantidas pela igreja católica ou evangélica, outras que tenham ligação com a cruz vermelha e há redes de creches com várias filiais espalhadas pela cidade. Por aqui, desde 2013 a prefeitura arca com as 5 primeiras horas de qualquer criança em qualquer creche[1]. Então, se você mora em Hamburgo, não importa se você é nacional ou não e nem qual sua renda, seu filho terá garantidas 5 horas gratuitas em qualquer creche que você consiga vaga. Sim, porque se o Estado banca a creche para você, não existe essa mesma corrida que no Brasil: quem pode pagar consegue a melhor escola. Por isso, as melhores creches costumam ter fila de espera que pode demorar mais de 1 ano para a matrícula. Além disso, caso seja necessário mais do que cinco horas, é preciso comprovar baixa renda e a prefeitura arcará com o resto. Mas ainda que não se consiga o subsídio para as horas complementares, o custo costuma ser muito inferior que no Brasil.

A universalidade no acesso às instituições de cuidado infantil implica também em escassez de mão de obra e esse me parece ser um problema recorrente na Alemanha. Para se trabalhar em uma Kita é necessário ter formação específica e o salário não é assim tão vantajoso, então é comum nos depararmos com a grande rotatividade de pessoal ou mesmo falta de cuidadores nas creches.

Sei que outras cidades possuem o mesmo esquema de Kitagutschein (espécie de “vale-creche”), como em Berlim, contudo, esse esquema varia conforme a cidade. E é bem verdade que nem todas as cidades contam com um suporte estatal no que diz respeito ao cuidado com crianças pequenas. Contudo, não existe isso de segregar as crianças por classe social. Mas é evidente que alguma segregação aconteça já que a escolha da creche geralmente se dá pela proximidade com a residência da criança, então creches localizadas em bairros mais ricos costumam receber crianças oriundas de famílias mais abastadas e o contrário também é verdadeiro. No entanto, isto não é um fator determinante já que a proximidade com a residência não é um requisito para se pleitear vaga na creche.

Portanto, a escolha da creche aqui é definida primeiramente pela busca por vaga e depois pelo método de cuidado adotado pela escola. Diferentemente do Brasil, que primeiramente faz-se a escolha entre pública e privada, para depois nos preocuparmos com vagas ou com valor de mensalidade. E essa diferença é crucial em relação ao público da creche: enquanto no Brasil as crianças são deliberadamente segregadas desde a mais tenra idade conforme sua classe social, aqui todas partilham do mesmo espaço de cuidado.

 

3 – A ADAPTAÇÃO

A adaptação também é algo que varia muito de escola para escola. Nas três creches que meu filho frequentou no Brasil, a adaptação nunca passou de 3 dias. E eu também nunca participei ativamente dela, no sentido de ficar junto na sala enquanto ele conhecia o novo espaço.

Já na Alemanha, é muito usado o método chamado de “Berliner Eingewöhnungsmodell”. Este método de adaptação dura cerca de 4 semanas e funciona basicamente neste esquema: No primeiro dia, o cuidador tem uma conversa com os pais sobre os hábitos da criança como alimentação, sono, forma de brincar ou qualquer outra especificidade. Além disso, ele explicará como funciona a escola e sua rotina. A partir do segundo dia, o pai ou a mãe, ficará na creche junto com seu filho por cerca de uma hora. O ideal é que o pai/mãe não brinque exclusivamente nem com seu filho nem com outras crianças, mas que interaja de alguma forma e se mostre sempre disponível quando seu filho demonstrar necessidade. Isso se seguirá por 4 dias e o tempo pode variar conforme o interesse da criança.

 

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A partir da segunda semana, inicia-se a separação. No primeiro dia, ela durará apenas alguns minutos e servirá para sentir como a criança fica sem a presença do pai/mãe. Nos próximos dias, a separação durará cerca de meia hora/uma hora e irá aumentando conforme se perceba que a criança está confortável com a nova situação.

A fase de “estabilização” (Stabilisierungsphase) é iniciada a partir da terceira semana e varia muito conforme a necessidade da criança. Ou seja, ela já permanecerá sozinha na creche durante o tempo pré-estipulado de contrato, contudo, terá um cuidado muito próximo por parte dos cuidadores, de modo a identificar qualquer incomodo ou insatisfação por parte dela. Os pais ficarão avisados que deverão estar disponíveis para qualquer eventual chamada da creche para buscarem seu filho.

A quarta semana é denominada “Schlussphase” e a partir de então se espera que a criança esteja finalmente adaptada, embora ainda seja considerado normal qualquer estranhamento por parte dela.

E este esquema relativamente “demorado” para os padrões brasileiros é empregado para todas as crianças que iniciem em uma nova creche na Alemanha, ou seja, essa adaptação não é apenas empregada para as crianças estrangeiras ou para aquelas que iniciem pela primeira vez no sistema escolar. Eu vejo essa forma de adaptação como uma maneira muito respeitosa de lidar com a criança, considerando que ela passará várias horas do seu dia sob a responsabilidade de pessoas que até então são para ela desconhecidas.

 

4 – OS CUIDADORES

A formação técnica é um requisito para se trabalhar em qualquer creche na Alemanha. Ainda que no Brasil muitas escolas exijam o curso de magistério ou de pedagogia, a grande maioria ainda trabalha com profissionais que não possuem qualquer formação teórica para atuar com crianças.

Na Alemanha é comum se exigir, no mínimo, uma especialização técnica para qualquer ofício. Desde manicure a pintor de parede. E não seria diferente para os cuidadores de creche.

Além disso, é muito comum vermos homens trabalhando como cuidadores. Inclusive, há quem diga que as instituições procurem sempre por profissionais masculinos porque essa seria uma demanda dos pais. A presença masculina por aqui nas funções de cuidado é vista com muitos bons olhos e os pais apreciam que seus filhos sejam cuidados tanto por homens como por mulheres.

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Talvez isso seja até um reflexo da forma como os alemães veem o cuidado das crianças. É muito comum encontramos por aqui pais sozinhos com os filhos nas ruas, parquinhos, restaurantes e mercados. A figura masculina é realmente presente na criação dos filhos e então porque não seria nas creches?

Há quem diga também que os cuidadores alemães não são tão afetuosos como no Brasil. E é verdade que uma das grandes diferenças entre brasileiros e alemães é a forma de lidar e demonstrar emoções. Eu, particularmente, não vejo essa diferença como um sinal de frieza ou distância. Pois ainda que os cuidadores aqui não mantenham tanto contato físico com as crianças, sendo beijos e abraços menos frequentes que no Brasil, vejo a forma de cuidado daqui de maneira bastante afetuosa. Mas não deixo de achar engraçada a reação deles quando meu filho se despede com beijos e abraços, eles ficam realmente sem saber o que fazer.

 

5 – A CRECHE COMO LOCAL DE LIVRE ACESSO

Nas creches que meu filho frequentou no Brasil tanto a entrada como a saída eram feitas no portão. Os pais não entravam na escola. Em apenas uma delas havia um dia e um horário específico em que os pais podiam ir buscar seus filhos diretamente nas salas. Sei que isso não é regra e que geralmente as escolas públicas são de mais livre acesso do que as escolas privadas. Fato é que nas Kitas, as crianças são sempre deixadas pelos pais dentro da sala e no momento da saída, o procedimento é o mesmo.

Inclusive, na Alemanha não se utiliza a agenda escolar. Para quem não conhece, a agenda é a forma de comunicação entre pais e cuidadores. Ali é anotado tudo que a criança fez durante o dia: os momentos em que houve troca de fraldas, como ela se alimentou e as atividades que fez. Nas creches alemãs, o contato é feito diretamente com o cuidador no momento da entrada ou da saída da criança. Tudo de importante ou relevante que tenha acontecido ou que precise ser dito é conversado no momento em que os pais vão buscar ou deixar os filhos.

Por isso, tenho a impressão que na Alemanha exista uma integração maior entre escola e os pais e a hora da entrada e da saída são um reflexo disso. A creche está sempre de portas abertas para os pais.

 

6 – AS FESTAS

As festas das creches particulares no Brasil costumam ser grandes eventos e são várias: festa de dia das mães, festa de páscoa, festa junina, festa de dia dos pais e a grande esperada festa de final de ano, em que muitas reservam um teatro exclusivamente para a apresentação das crianças.

Por aqui, as festas são menos numerosas, menores e contam com a integração entre a creche e os pais para sua elaboração. Posso até comparar as festas daqui com as festas juninas no Brasil, não pelo tema (claro!), mas pela forma de se organizar a festa. Cada pessoa leva algo para comer e beber e as brincadeiras são organizadas em conjunto.

A forma como as festas são organizadas nas creches da Alemanha refletem bem o que se espera dos pais: que eles interajam, participem e ajudem em todos os temas relacionados à creche e a seus filhos. Neste aspecto, as creches públicas no Brasil se assemelham com as Kitas, visto que no Brasil os pais são incentivados a participarem de conselhos de pais e mestres, as instituições costumam ser mais abertas e as festas também são realizadas em conjunto entre pais e cuidadores.

 

7 – A ROTINA

Embora o clima alemão não seja o mais favorável para passeios ao ar livre, ficar um dia todo em um ambiente fechado, definitivamente não é típico dos alemães. E essa regra se aplica também às creches. Os passeios por aqui são quase que diários e é muito comum vermos grupos de criança passeando pelas ruas com seus coletes de cores chamativas (na Alemanha não se usa uniforme!). Esses passeios variam entre explorar os parquinhos próximos (e há muitos e são muito diversificados), ir a lugares para prática de esporte, ou a piscinas, e até mesmo trajetos mais longos como uma visita ao zoológico, por exemplo. Tudo isso a pé ou utilizando o transporte público. Ou nem sempre é feito a pé, visto que as crianças menores também participam e as creches costumam contar com um carrinho parecido com esse para levar as crianças que ainda não conseguem andar por longos trajetos:

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Já no Brasil, os passeios são raras exceções nas rotinas das creches e nunca é algo espontâneo. Sempre agendado com muita antecedência, geralmente feito apenas com as crianças maiores de 3 anos e sem andar na rua, já que frequentemente é locado um ônibus ou uma van para fazer o transporte. Então, as crianças acabam passando dias inteiros dentro de um mesmo espaço e brincando no mesmo parquinho (isso quando as instalações da creche possuem um espaço externo, o que nem sempre acontece).

E, no entanto, me parece impossível aplicar a mesma rotina das creches alemãs às creches brasileiras porque nossas cidades não são projetadas para acolher as crianças. Na verdade, elas abrigam muito bem os carros e as pessoas ficam espremidas entre eles. E vejo isso como um círculo vicioso: não temos direito à cidade porque não a requeremos, ou não requeremos o direito à cidade porque ela não nos acolhe? Não sei dizer. Mas a presença constante das crianças nas ruas faz com que nos lembremos o tempo todo que elas também são cidadãs e que a cidade precisa ser pensada para elas. Além disso, o contato direto com a comunidade é estimulado a cada passeio.

(Coincidentemente eu acabei de fazer uma pausa neste parágrafo para ver pela janela meu filho passeando com a creche rumo ao salão de esportes).

Portanto, para além da diversão que é o passeio em si, acredito que colocar as crianças diariamente para andar nas ruas da cidade desperta um senso de coletividade não só nas crianças como nos adultos que transitam por ela. Os carros andam mais atentos, as calçadas são largas, as faixas de pedestre estão por todo lado, o tempo do semáforo respeita o tempo das crianças e há parquinhos espalhados por toda a cidade com brinquedos muito estimulantes, brinquedos estes sempre diferentes e com a manutenção em dia. Enfim, manter as crianças na cidade à vista de todos faz com que as pessoas estejam atentas ao cuidado delas, repensando e refletindo formas de melhor acolhê-las. Por aqui, as crianças têm direito à cidade e a requisitam todos os dias.

 

8 – O OBJETIVO

As creches no Brasil ainda são chamadas de pré-escola pois são vistas como uma preparação para o ensino formal, tanto o é, que na pedagogia essa área é chamada de Educação infantil. Já na Alemanha, a ideia de pré-escola está em desuso, dando lugar ao Betreuung (cuidado), nome que é dado ao sistema institucional que se preocupa com as crianças menores de 6 anos.

A diferença conceitual é muito importante para entender as diferenças entre creches brasileiras e alemãs. Enquanto aquelas se estruturam para preparar a crianças para escola estimulando a alfabetização e o manuseio de livros e materiais escolares, na Alemanha o objetivo principal é a socialização, o cuidado e o despertar de um senso de coletivo.

Por isso ainda é tão comum no Brasil chamar creche de “escolinha” (eu só me refiro a creche dessa maneira) ou mesmo haver escolas de ensino fundamental que já oferecem vagas para crianças desde os 3 anos, com o claro objetivo de inseri-los na educação formal de forma gradual.

Já na Alemanha, como não há preocupação com a educação no sentido de ensino formal dentro das creches, os cuidadores ocupam a função apenas de orientar ou de cuidar e, portanto, não são vistos como professores. A brincadeira e as atividades rotineiras do dia-a-dia (manuseio de faca/tesoura para preparação de alimentos, uso de transporte público, brincadeiras com martelo etc) dão lugar ao ensino em sentido estrito.

O senso de coletividade é uma marca muito forte das instituições que atendem as crianças. Enquanto no Brasil se cultiva o apreço pelo desempenho individual com muitas atividades focadas na valorização da criança como línguas estrangeiras, artes marciais, natação, na Alemanha o foco é a socialização e o estímulo à autonomia. Portanto, o contato com a cidade, as ruas, as pessoas, os meios de transporte e outras atividades que estimulem a autonomia são tão valorizadas por aqui.

É importante destacar também que essas atividades “extras” oferecidas pelas creches são típicas do sistema privado. Porem, como dito acima, a forma como nossas cidades são arquitetadas não permitem que nem as creches públicas nem as privadas ocupem a cidade com as crianças. E isto acaba alimentando a cultura de que lugar de criança é dentro de um ambiente fechado e protegido, o que desestimula e muito o senso de coletividade.

E este zelo pela autonomia pode ser visto como negligência. Não é raro ouvir reclamação de mães brasileiras que se incomodam com a forma adotada pelos cuidadores no cuidado. Afinal, para se estimular a autonomia é preciso estimular a descoberta e essa vem sempre acompanhada de erros, frustração e, às vezes, tropeços e quedas. O objetivo é fazer com que as crianças se descubram capazes e se sintam parte do corpo social. A individualidade é respeitada, mas não supervalorizada (vide a ausência de agenda escolar, de relatórios semestrais e de inúmeras atividades extracurriculares, como no Brasil).

Acredito muito que entender a forma como uma sociedade trata suas crianças, sobretudo no que diz respeito ao nascimento e aos cuidados na primeira infância, nos ajuda a entender os princípios sobre os quais esta sociedade está estruturada. Partindo daí, posso afirmar que a Alemanha é um país que preza pelo coletivo, pela igualdade e pela autonomia.

 

Embora acredite que estes pontos sejam muito presentes nas creches da Alemanha e no Brasil, este texto não tem por objetivo uma análise minuciosa dos dois sistemas de cuidado/educação infantil. Como já dito, a minha experiência está limitada a escolas particulares na cidade de Curitiba e a um Kita em Hamburg. Mas este texto não é só meu. Ele foi escrito após consultar várias mães brasileiras que vivem na Alemanha e é, portanto, um texto coletivo. E além deste texto, aqui na página já foi escrito sobre kitas, aqui por exemplo!

 

[1] Há algumas poucas exceções de creches em Hamburg que não estão contempladas pelo sistema de Gutschein porque as mensalidades estão muito acima do valor proposto pela prefeitura. Contudo, não esse número não chega a ser maior que uma dezena. Além disso, há kitas que oferecem cuidado bilíngue e para tanto, o serviço é cobrado à parte.

Experiências com parteiras

Este texto surgiu a partir de uma discussão no grupo Mães Brasileiras na Alemanha, no facebook. Uma das participantes pediu que as mães contassem suas experiências e dissessem o que lhes fez falta e o que gostaram durante o parto e durante o acompanhamento por parteira em casa. As experiências são bem diversas, não só porque cada parto e grávida ou mae e bebê são únicos, mas também porque as profissionais têm backgrounds diferentes e personalidades distintas.

Na Alemanha, a parteira, chamada de Hebamme, é a profissional responsável pelo pré-natal, parto normal e pós parto. Normalmente o serviço dela é pago pelo seguro de saúde.

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Aninha

Pra mim pessoalmente, a Hebamme do hospital que eu tive agora, quando minha filha nasceu, foi super meiga, bem atenciosa, vivia me abraçando, falando palavras de apoio.. E quando eu estava ali morrendo de ódio do mundo (rsrs), ela me abraçava… E sério, eu amei o perfume dela.. Era algo bem delicado, de flores ou assim… Levei depois umas flores para ela.
A Hebamme que veio aqui para casa já foi totalmente o contrário… Muito fria, deu pra perceber que para ela era só um trabalho. Não me senti bem acolhida. No primeiro filho eu fiquei com muitas dúvidas, de mãe de primeira viagem, e tinha receio e até vergonha de perguntar…. Quando eu perguntava algo, ela só respondia algo básico e não tentava entrar em uma conversa comigo…. Faltou o calor humano, nas duas Hebammen que tive aqui em casa…

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Elisangela 

O que gostei da minha: disponibilidade de vir em casa com extrema rapidez e responder mensagens pelo WhatsApp. (Tudo pago, claro, inclusive as mensagens vem na conta, hehehe)

O que não gostei: falta de proatividade em dar informações.
Eu comentei duas vezes sobre as cólicas e depois de perguntar claramente, se haveria algum remédio, ela indicou.
Tipo ela é um poço de informação, mas não sai entregando o ouro assim.

 

Gabriela 

Quanto à amamentação, as Hebammes aqui têm tendência a fazer a gente completar com leite artificial. Eu tive que fazer uma guerra. Meu resguardo tinha tudo pra ser perfeito, porque minha filha é super tranquila e dorminhoca. A adaptação com ela foi tão natural que parecia que eu já tinha ela já. Porém a Hebamme disse pra completar com leite.  Nossa, quase destruiu meu casamento, porque meu marido me xingava pra completar e eu recusava! E foi ótimo porque o pediatra depois de um mês disse que não precisava que ela tinha engordado 1220g e que o mínimo era 600 gramas, então ela estava ótima. Aí depois ficou tranquilo, mas perdi aquele primeiro mês que poderia ter sido super tranquilo e foi tenso. É isso. Toda mulher consegue amamentar e precisamos de incentivo!

Hebamme não entendeu que minha filha não mamava de 3 em 3 horas e então ela queria que eu acordasse a minha filha. Aí eu tentava acorda-lá mas nada dela acordar. A Hebamme disse que não era normal e eu entrei em pânico. Só depois percebi que não tinha nada de errado nisso. Que existe essa tal de livre demanda. Aí fiquei tranquila.

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Karla 
Pontos que adorei na minha Hebamme:
-me deu bastante apoio me elogiando sempre o que me fortalecia, dava aquela sensação de estar fazendo o certo
-me deu bastante apoio psicológico durante o puerpério
-me ensinou logo na segunda visita a amarrar um Tragetuch ❤️
-quando tive um Milchstau cuidou intensamente de mim, me ligava pra saber como eu estava

O que poderia ser melhor:
– achei que ela cuidou mais de mim do que me deu dicas com o bebê
– senti falta de mais apoio quanto as cólicas, ela disse que era normal, não adiantava fazer nada, aí eu mesma pesquisei técnicas de massagem e tal
– mais pro final começou a faltar às visitas e nem se desculpava.

 

Natalia

Eu tive uma Hebamme (para antes e depois do parto) maravilhosérrima que tem um lugar muito especial no meu coração 💜. Sem ela eu tinha enlouquecido de vez quando descobri a gravidez (já com 16 semanas) e teria sido muito mais difícil lidar com o bebê recém-nascido em casa (cuidados, higiene, sono, amamentação…) Ela ainda nos traz muita segurança e temos com ela uma relação de parceria muito boa 💜.

A Hebamme que deu o curso de preparação de pais para mim e para o meu marido também foi ótima e em dois dias mudou nossa perspectiva em muitos aspectos.

A Hebamme que me acompanhou durante o parto no St. Joseph em Berlim também foi ótima e o apoio dela foi muito importante pra mim num parto que eu nem gosto de me lembrar.

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Juliane 

Eu não tive uma boa experiência com a minha Hebamme, mas acho que é extremamente importante, principalmente quando o trabalho é bem feito! Era isso que eu esperava… Bom, o meu pós parto foi conturbado, meu filho nasceu prematuro( 34 semanas) e ficou 17 dias internado. Recebi uma visita antes do parto, avisei no dia do nascimento e ela pediu para eu ligar novamente quando ele tivesse alta. Eu tive muita dor pélvica, talvez porque não fiz repouso, na verdade o meu filho nasceu e eu não descansei nem 1h. Fiquei 2 dias no hospital, ele estava em outro prédio, então caminhava para vê -lo. Voltei para casa sem ele, a minha casa ainda não estava pronta, mudei pouco antes do parto e eu fui atrás das coisas para o bebê e para terminar a casa… Tudo isso a poucos dias antes do Natal. O hospital não era perto de casa, mas eu ia todos os dias vê-lo, tentei amamentar, tirava leite, mas com todo o estresse meu leite era pouco, quase nada. No dia da alta, 30.12, a pediatra desaconselhou a amamentação, ele continuou com a fórmula para prematuro. Vim para casa, avisei a Hebamme e ela veio nos visitar uns 3 dias depois… Meu filho era pequeno, bem pequeno e ela parecia ter medo de pegar. Ela até tentou me encorajar a amamentar, o meu leite aumentou, mas eu era só medo! Não amamentei… O tempo passou e no dia da última visita ela me deixou em pânico. Disse que eu devia ir ao pediatra urgente porque o meu filho podia estar com uma alça intestinal exteriorizando… Ele tinha uma hérnia umbilical, o q é bastante comum em prematuros. Resumindo, eu precisava de alguém forte ao meu lado, que me fizesse sentir amparada, mas não tive… Já as Hebammes do hospital, que fizeram o meu parto, foram sensacionais. Sem elas eu não teria conseguido!!!

 

Ingrid 

Tive meus dois partos no hospital e as duas Hebammen foram demais. Falaram conosco em inglês o que nos ajudou muito, foram atenciosas e realmente me passaram tranquilidade e confiança. Uns amores, já a que me atendeu em casa me ajudou em algumas coisas mas não tanto quando deveria, chegava em casa sempre afobada parecendo sempre não ter muito tempo (o que deve acontecer mas não precisa demonstrar tanto, né?).
O que acho que mais queremos quando estamos passando por isso é atenção e empatia.

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Silvana 

Bem, tem a Hebamme do parto e tem a do pós parto, certo? A do meu parto, foi beeeem mais ou menos. Senti muita falta de informações, dizer o que estão fazendo, ou mesmo de dar um auxílio no que fazer, porque na hora do “vamos ver” não tem curso que resolva. MAs aqui na alemanha, ao menos aqui no leste, onde moro, é tudo meio assim mesmo, os médicos não explicam nada, só saem fazendo, e se questionados ficam bravos, como foi no meu caso, fiquei com placenta no útero e meu ginecologista ficou furioso, ele é do leste, e quando voltamos no hospital pra fazer a curetagem, questionamos a médica, e ela ficou toda bravinha, mas enfim, faz parte! Já a Hebamme que veio em casa foi formidável, amei tuuuudo, sem ela não sei como teria sido. Ela conversava comigo, quase que uma psicóloga, cuidava da minha filha, e me dava muitas dicas, enfim, foi maravilhosa.

 

Bárbara 

Sou doula, já moro há 8 anos aqui na Alemanha e tive minhas duas filhas aqui. Minhas parteiras tem um lugar muito especial no coração da minha familia! Minha primeira nasceu num hospital antroposófico em Herdecke e minha parteira era “Beleghebamme“. Já nos conhecíamos do acompanhamento do pré-natal. Chegou a hora do parto, liguei pra ela e nos encontramos na sala de parto. Não consigo imaginar dando a luz com uma pessoa estranha, num momento tao íntimo! Há 1 ano e 3 meses nasceu minha outra filha, Luma, aqui em casa. Tive outra parteira, já que moramos em outra cidade (perto de Göttingen). Foi um parto lindo lindo, calmo, seguro! E o interessante é que as minhas duas filhas nasceram 18 dias depois da data prevista pelo exame. Mas graças às essas 2 parteiras, pude esperar, receber muita confiança no meu corpo e no tempo das minhas filhas. Foram experiências maravilhosas e tenho certeza de que muito do que pude viver foi graças a essas mulheres, com suas confianças, profissionalismo e experiencia com mulheres (e não só com numeros e máquinas e pesquisas)! E foi por ter tido uma experiência tão positiva no primeiro parto, que fiz minha formação como doula. Por isso meninas, quem morar perto de Göttigen ou Hildelheim (estado de Niedersachsen), me escrevam! Estou à disposição. Minha página está quase pronta, por isso ainda não divulguei aqui.

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Gabi Bu

com uma Hebamme que nasce, nasce uma mãe mais confiante e segura💗 fico muito feliz pela sua escolha! Minhas Hebis foram as pessoas mais importantes na minha vida durante o resguardo. A primeira me ajudou muito depois de um parto traumatizante: cesariana depois de 3 Dias induzindo😢 a experiencia foi muito triste por que queria dar o melhor começo de vida pra minha filha, ou seja, o parto normal. Não conseguia acreditar que aquilo tinha acontecido comigo. Todos falavam “o que importa é que vocês estão bem”, ninguém entendia o que era se sentir fracassada por não poder trazer o proprio filho ao mundo😢 minha Hebi foi a única que reconheceu minha dor e sempre serei agradecida a ela por isso.
As minhas Hebis do segundo parto (domiciliar) foram minhas heroínas. O que mais gostei foi que elas se mostraram super confiantes e me deram muita força.

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Bruna 

Trabalhar com mães, ainda mais gestantes e puérperas, exige uma disponibilidade e delicadeza especiais.

Eu tive contato com 4 Hebamme diferentes nas minhas duas gestações, além das que fizeram meus partos no hospital universitário. Na primeira gravidez, fiz cursos de preparação para o parto com elas (eram uma equipe de duas, que algum tempo depois que meu bebê tinha nascido, se separaram) e para mim foi muito bom, pois sou médica e vinha cheia de medos do sistema de atendimento obstétrico alemão. Mas no puerpério, estressei com elas. Uma delas, a que vinha todos os dias me ver, me encheu de cremes e acessórios para amamentação (eu estava sofrendo muito com Milchstau, mastite, rachadura, fissura), Vinha 2 vezes ao dia e falava PELOS COTOVELOS. Era algo massacrante, até porque minha fluência no alemão não era lá essas coisas na época. A outra era mega natureba e me recriminava e julgava quando eu usava alopatia (remédio para dor, por ex.) Meu parto foi um pouco difícil, fizeram Kristeller e eu tive que voltar ao hospital depois com suspeita de costela quebrada). Uma coisa em ambas que me incomodou demais foi que ignoravam sumariamente minha mãe e não tinham nenhuma sensibilidade para as nossas diferenças culturais. Queriam impor suas crenças e métodos sem se importar em saber se eu faria ou desejasse algo diferente. Um exemplo: o primeiro banho, que minha mãe estava doida pra dar e a Hebamme ignorou o fato, pegou meu filho e deu banho sem nem dar tempo de dizermos alguma coisa… Porém elas sempre me pareceram muito boas tecnicamente.

Minha segunda gravidez foi agora, meu filho está fazendo 2 meses hoje. Escolhi outra Hebamme para me acompanhar devido aos problemas que relatei acima. Eu também queria uma que fizesse acupuntura e elas não faziam. Resolvi arriscar com outra. A princípio ela me pareceu ok, mas no puerpério descobri algumas deficiências técnicas mesmo. Ela nem examinou direito meu bebê e solicitou que eu fosse ao pediatra dosar bilirrubinas, quando a icterícia dele era super leve. Um stress desnecessário. (Eu acabei indo porque ela estava fazendo questão e eu não queria confusão com Hebamme de novo, mas também principalmente porque eu tinha outro assunto para discutir com o pediatra.) Ela também não diagnosticou uma candidíase mamária que eu tive e ficou meio ofendida quando eu fui ao médico (que também não sabia o que era – quem fez o diagnóstico fomos meu pai, tb médico, e eu mesma.) Em terceiro lugar, ela ficou bravinha porque eu, com mastite e tomando antibiótico, em vez de usar Quark, fiz compressa gelada. Chegou na minha casa super brava, dizendo que se não fosse para eu seguir as orientações dela, que então ela não viria mais. Tipo louca. Eu simplesmente disse: então não venha mais. Aí ela ficou mais p*** ainda. Foi BIZARRO. Depois disso, encontrei uma Hebamme EXCELENTE, que, além de muito competente tecnicamente, tinha um diferencial enorme: ela é também Stillberaterin certificada (fez o curso do ICBLC). … Tb achei que ela foi muito mais respeitosa comigo, em vez de tentar impor sua visão, como as outras fizeram.

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Fernanda

Eu amei tanto a minha Hebamme. Ela cuidou MUITO de mim e do meu filho. Tive uma mastite grave e foi ela que diagnosticou, quando eu achei que só estava gripada. Ela era o meu oposto em estilo de vida. Pra dar alguns exemplos, ela só aceitava um copo de água quente (tipo, chá de água), nao tinha TV em casa e nem microondas. E mesmo assim nós duas nos conectamos, Ela é uma das pessoas mais agradáveis e amorosas que eu conheci. Ela e minha mãe se adoraram, riam e conversavam do jeito que dava, misturando inglês com o pouco de espanhol que ela falava. Ela ouviu sobre os meus medos de parto, e me ofereceu tudo que é conforto: massagens, florais, acupuntura… ela cuidou do meu corpo e da minha mente. Fiquei muito triste quando ela parou de vir, senti uma perda.
Logo que fiquei grávida da Camila, liguei pra ela. Ela ouviu minha voz e já disse: você está grávida!!! Ficamos muito felizes com a chance de convivermos de novo. Com a Camila eu tive dificuldade pra amamentar, meu seio feriu e eu demorei pra acertar a pega. Ela me dizia que qualquer mãe já teria desistido, mas que ela sabia que eu nao desistiria. 🙂 E me ajudou de todas as maneiras que ela pode. Mais uma vez ela cuidou do meu corpo e do meu emocional.
Eu sabia que nao teria mais filhos, e fiquei ainda mais triste quando nos despedimos. Eu chorei e ela se emocionou, e chorou junto comigo. ❤
Acho que se eu encontrar ela na rua um dia as duas vão fazer aquele escândalo de alegria, bom, pelo menos eu vou! 😀

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Vanessa 

Eu tive contato com 2 Hebamme. Vou começar com a do hospital no parto. Ela foi simpática, mas não foi presente. Não que eu esperasse que ela ficasse o tempo todo comigo, porque eu sei que isso é impossível, mas nos momentos de dores, eu não tive nenhum auxílio dela de como eu poderia aliviar as dores, ou melhor posição. Achei ela muito insegura e essa insegurança me incomodou muito. Eu tive um trabalho de parto bastante longo, durou 24 horas. O médico teve que induzir, porque a minha filha já estava demonstrando sinais de stress. Com a oxitocina, eu não consegui mais controlar as dores e eu pedi uma PDA, o que eu não queria. A Hebamme só chegou perto de mim para perguntar se eu tinha certeza, não me ofereceu nenhuma outra alternativa para aliviar a minha dor. Depois de 23 horas de parto, ela fez um toque e disse que a minha filha não estava na posição correta e que eu teria que levantar da cama pra fazer exercícios físicos para a minha filha subir e descer na posição correta. Eu estava exausta e pedi que ela chamasse a médica porque se fosse assim eu preferiria uma cesária. A médica chegou, fez o toque e disse que estava na posição correta. Eu queria matar a Hebamme. Um estresse desnecessário. É horrível você não ter confiança em quem está fazendo o seu parto. Ah, ela ainda me deu um corte quando eu falei que não queria. Eu só ouvi a tesoura cortando. Não tinha a menor necessidade, a minha filha era super pequena.

A minha Hebamme pós parto, eu conheci ela quando estava com 15 semanas de gravidez. Eu já estava sentindo bastante dor nas costas e ela fazia massagem em mim 1 vez por semana. Mais para o fim da gravidez, ela resolveu fazer uma massagem mais forte. Eu falei para ela que estava. Sentindo muita dor e ela só falou para eu continuar respirando. No dia seguinte eu sentia dores na barr e lombar e estava cheia de hematomas. Não fiz mais massagem.

Viemos para casa 4 dias depois do parto e estava tendo dificuldade com amamentação. No início ela só me mostrou algumas posições para amamentar. A minha filha estava com a taxa de icterícia no limite e teve um dia que ela dormiu 5 horas seguidas e não acordava por nada. Eu liguei para a Hebamme e ao invés dela me explicar que icterícia era assim mesmo, ela mandou eu correr para o hospital. Chegando lá, tomei uma bronca da médica por estar amamentando, pq a minha filha estaria muito fraca para sugar e que eu iria acabar matando a minha filha. Nem preciso dizer o quanto isso impactou na amamentação.

Eu queria muito amamentar a minha filha e tinha leite, mas a pega estava incorreta e por isso o bico dos meus seios queimavam e eu sentia muita dor. Ao invés dela corrigir a pega, ela me perguntou se eu tinha tomado magnésio até o fim da gravidez, e eu disse que sim. Ela disse que isso era o motivo por eu estar sentindo dor, porque eu não poderia tomar até o fim da gravidez e me receitou tomar 10 comprimidos de magnésio diluídos em água de 1 vez só durante 10 dias, que não adiantou nada. Nesse meio tempo, ela trouxe uma sonda da medela e falou que isso ia me ajudar a amamentar. Eu quase morri quando ela colou e depois tirou a fita que cola a sonda do meu peito, que já estava assado. Ela trouxe uma mamadeira da medela, ela trouxe tudo quanto era novidade, livro de relactaçao enquanto meu peito jorrava leite?! , mas nada de corrigir a pega, que ela dizia que estava correta. Por fim, só consegui amamentar 3 semanas…e veio a culpa, o sentimento de incapacidade, derrota.

Um belo dia ela decidiu dar banho na minha filha. Eu tinha comprado um balde e uma banheira. Ela tentou dar banho na minha filha no balde e a minha filha gritava e rodava igual a um peão. Não satisfeita, ela mandou eu encher a banheira da minha filha e falou que ia tentar na banheira pq ela queria mostrar o quanto o banho acalmava o bebê. A minha filha só gritava e eu falava pra ela: eu acho que já chega, já tá bom. E ela insistia. Meu marido pegou ódio mortal dela, não só pelo episódio do banho, mas porque ela reclamou com ele que ele estava muito ausente e que a prioridade dele deveria ser eu e a nossa filha. Imagina, meu marido tinha saído para resolver a papelada do Elterngeld e Kindergeld.

A Hebamme nunca chegava na hora combinada. Ela sabia que eu não saia de casa e eu fazia a minha rotina em função do horário que ela marcava. Toda mãe sabe que a hora que o bebê dorme, é um momento de ouro. Ela chegava na hora que a minha filha dormia e aí acordava a minha filha, tirava a roupa para pesar, ia embora e me deixava lá com a minha filha gritando. Estou grávida de novo e chamei outra Hebamme. Espero que dessa vez seja diferente.

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Deisy

Eu tive uma super sorte com todas as Hebammes que me ajudaram no nascimento da minha filha. Fiquei 5 dias internada induzindo o parto e elas foram maravilhosas. Percebiam minha angústia, o medo de ter que fazer uma cesária, o medo de o bebê não estar bem. Elas não foram apenas excelentes profissionais, elas foram humanas, faziam massagem, acupuntura, mimavam mesmo. Quando induzi com ocitocina, demorou muito para começarem as contraçoes, comecei a ficar nervosa, pois eu sabia que não poderia ficar muito tempo na sala de parto, se não funcionasse eu voltaria para o quarto e faria uma cesária. A Hebamme trouxe uma cama para meu marido, estávamos há quase 20 horas acordados, na expectativa. Ela então sentou-se ao meu lado e começou a fazer massagem na minha barriga. Eu adormeci e acordei uns 30 minutos depois com a bolsa rompendo. Tenho certeza que essa postura foi fundamental para que minha filha tenha nascido de PN. A Hebamme que me atendeu em casa também foi maravilhosa, me ajudou muito. Graças a ela e à Fernanda eu pude amamentar minha menina até os 2 anos, como havia sonhado.