Mães trabalhando na Alemanha

A partir de uma discussão no grupo Mães Brasileiras na Alemanha, percebi que poderia juntar num texto os relatos de algumas participantes sobre como é trabalhar, sendo mãe na Alemanha.

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A realidade aqui é dura. Eles esperam que as mães larguem o trabalho na primeira infância. Há muitas críticas e caras feias. Por mais que a gente rebole, nunca seremos tão presenciais como quem não tem filhos. Eu consegui, depois de 11 anos pleiteando a minha Home-office 1 vez por semana. Começo dia 01.04. É duro, mas eu acho que vale a pena. O marido tem que entrar no esquema, senão NoChance! Mas se prepare: mulher trabalhar fora é terreno fértil para conflitos… muita paciência, conversa e se vira nos trinta. Depois de alguns anos o marido vê que vale a pena!L, Stuttgart

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Eu trabalho horário integral, temos dois filhos de 5 e 2 anos. É puxado, mas a gente consegue. Pra começo de estória quando o nosso namoro ficou sério e ele disse que queria filhos a minha condição foi que ele assumiria metade do trabalho com as criancas, e assim foi e está sendo. Eu tirei 6 e 8 meses de licença, respectivamente. Ele tirou 8 e 6, assim as crianças também se apegaram a ele, e quando se machucam, ou estão carentes procuram tanto ele quanto a mim. Outro ponto, eu posso fazer dois dias de home office por semana, e tenho horário flexível. Assim se não termino o trabalho antes de ter que sair pra buscar as crianças, termino de noite ou no fim de semana. Meus colegas são 99% homens, no time todo somos só duas mulheres, e a outra trabalha também integral com dois filhos. Eles aceitam numa boa. Eles sabem que podem contar comigo mesmo que seja de madrugada. Meu marido sai pro trabalho às 5:30h, eu levo as criancas às 7:30 pro Kindergarten, ele busca 2x por semana, eu 2x, minha vizinha 1. em caso de doenca a gente reveza pra ficar com os filhos, cada um fica um dia, assim não fica muito trabalho acumulado. Quando eu viajo ele assume tudo, usando as horas extras que consegue fazer quando estou aqui. Não é frequente, mas acontece. Enfim, funciona, mas os dois tem que colaborar.L,  Munique

 

Trabalho em tempo integral, tenho dois filhos. Depois da 1a. filha fiquei 4 meses em casa, voltando em seguida a trabalhar em horário integral. Depois do segundo fiquei 6 meses em casa, então trabalhei por 5 anos 80%, depois voltei aos 100%. Isso exige muito jogo de cintura, organização, divisão de tarefas com o marido, saúde nossa e dos meninos, suporte da família, organização em casos de emergência, saber responder a insinuações maliciosas de quem se decidiu por outro caminho, etc., etc., etc., mas esse foi o caminho que escolhi e defendo pra mim.
Acho as políticas públicas alemãs cruciais pra conseguir equilibrar a vida de pais e trabalhadores, que têm seus defeitos sim, mas garante direitos nem existentes nos sonhos de pessoas morando em muitos outros países.S, Konstanz

Eu acho esse tema interessantíssimo porque vivo isso na pele todos os dias. Eu realmente concordo que a Alemanha está nesse sentido atrás, se comparado com países vizinhos.

Mas sendo uma mãe que vive essa correria entre trabalho de 30h/semana e mais todo o resto (casa, comida, e tantos outros afazeres) eu confesso que me sinto aqui muito mais acolhida como mãe, do que estaria em um país onde creches estão abertas de praxe até 20h, não existem quase vagas de emprego de meio-período, creches que aceitam criança com febre, catapora ou pneumonia. Aí automaticamente a família é obrigada a deixar a criação participativa dos filhos de lado e se entregar no trabalho, sem desculpas.

O modelo alemão contribui enormemente pros pais estarem mais envolvidos na vida dos filhos e eu acho isso excelente. Educação e amor não são deveres institucionais e sim dos pais.K, Gelnhausen

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Aqui eu tive chefes, até diretores, pais, que também saíam subitamente por causa de um pepino familiar e isso era encarado mais naturalmente, na maioria das vezes. Mas também pude presenciar situaçoes em que as maes eram descartadas para retornar ao emprego, se o esquema nao convinha à empresa.C, Mainz

Mas só de existir a possibilidade de escolha de uma licença parental entre 2 meses e 3 anos, existência de vagas de meio-período, possibilidade de faltar até um determinado número de dias por doença dos filhos… isso torna sim a vida de pais mais fácil, porque o sistema ajuda, mesmo existindo algumas empresas que não colaborem.K, Gelnhausen

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É o que estou lendo nesse estudo, como políticas públicas (mais creches, licenca de trabalho mais longa e melhor remunerada, incentivo para que os pais também passem mais tempo em casa, etc) têm ajudado a melhorar a situacao entre as familias – que ainda não é a ideal mas já é melhor do que há 15 anos.

Outra questão que eu nao tinha pensado ainda e que o estudo aborda é como essa diminuição da carga horaria e salários leva a uma dependência financeira da mulher mais tarde na vida, especialmente após a aposentadoria ou em caso de separação ou morte do parceiro. Pano pra manga!!!AL, Munique

A maioria das aposentadas na Alemanha vive quase em situação de miséria. Só que já ganhamos algumas coisas há alguns anos atrás, como o reconhecimento de ficar os 3 primeiros anos da criança em casa. Isso já conta para a aposentadoria, né? O que eu converso com meu marido e não sei, se em todo casamento é assim, é que ele invista para meu tempo mais tarde, ou através de seguros, aposentadoria complementar, pagamento de parcelas do apartamento próprio etc. Casamento é contrato, na minha opinião, não dá para viver no esquema de seu dinheiro, meu dinheiro…C, Mainz

Eu voltei a trabalhar depois de 4 meses. Meu filho ficava 8h por dia com a Tagesmutter para eu poder trabalhar. No meu caso, eu recuperava fim de semana ou na semana que o meu marido estava comigo. Quando o meu 1o. filho nasceu, meu marido começou a trabalhar em Munique e eu estava em Göttingen com o bebê. Ficava a semana sozinha. Eu consegui, fiquei muito mais eficiente. Tinha que usar o sistema de prioridades e qualquer coisa que saísse disso não era feita. Posso dizer que meu filho já frequentava o laboratório desde de pequenino, pois não tinha opção. A medida que as crianças crescem, vai ficando mais fácil. Não desiste não. Se você tiver que trabalhar meio período no início, que seja. Isso não será permanente. Ah, e se prepare, pois no 1o ano de creche, durante o inverno, as crianças ficam mais tempo doente em casa do que na creche. Depois melhora! Tenha esperança! Peça ajuda!F, Garching

Há muitos pontos positivos em continuar trabalhando: vc não perde o contato com os colegas e com a tecnologia, continua atualizada, não arruma um buraco no CV pra explicar depois, contribui pra sua aposentadoria e tem direito por lei de pedir redução de horas trabalhadas depois do Elternzeit com Elterngeld, que na minha época nem existia. E tem Kita, creche, Tagesmutter, felizmente algumas opções boas que ajudam muito a quem trabalha. Vc tem tempo pra pensar durante o Elternzeit que esquema de período parcial irá propor ao empregador depois do 1. ano de idade do seu filho, quando voltar a trabalhar. Pelas leis trabalhistas tem direito p.ex. a trabalhar 6h corridas, o que eu fiz e ajuda a manter o esquema regular de 8-2h da tarde, por exemplo. Leia todas as leis que se aplicam ao seu caso, pra ficar bem informada. Torço por vc e por todas as mães, pois tempo trabalhado significa maior independência financeira hoje e garantia de aposentadoria mais tarde.”  S, Konstanz

 

O artigo do jornal Zeit que gerou a discussão se encontra aqui (em alemão):

http://www.zeit.de/karriere/2017-02/muetter-frauen-deutschland-arbeit-oecd

O estudo do OECD citado no artigo do Zeit se encontra aqui (em inglês):

http://www.keepeek.com/Digital-Asset-Management/oecd/social-issues-migration-health/dare-to-share-germany-s-experience-promoting-equal-partnership-in-families_9789264259157-en#page12

O artigo que a Sandra Santos escreveu a partir dessa discussão no blog dela, se encontra aqui:

https://mineirinhanalemanha.wordpress.com/2017/02/24/trabalhar-ou-nao-trabalhar-na-alemanha-eis-a-questao/