Minhas filhas não voam – limitações e expectativas

Por Bárbara Zimmermann
Quando se fala em deficiência, geralmente fazemos duas associações: ou a pessoa é dependente de ajuda externa (e quem não é?) ou ela é um ícone de superação.

Por que minha filha deve mostrar pra alguém que ela superou sua própria limitação? Por que essa pressão de “mostrar para os médicos” que ela se desenvolve além do diagnóstico? É claro que quero ver ela se desenvolvendo com autonomia e felicidade, mas ela não precisa mostrar nada a ninguém. Não precisa ser ninguém a não ser ela própria. Não precisa ser ninguém que ela já não seja. Ela já é completa, perfeita e única – como cada um de nós.

Se eu imagino ela andando? Vez ou outra sim, em momentos de uma viagem ilusória para um futuro que nunca existirá. Isso acontece durante uns dez segundos a cada dois meses talvez. Mas é algo tão absurdo quanto olhar saudosa para a Emilia ou para Luma e desejar do fundo do meu coração que elas um dia comecem a voar. Não vai acontecer. A não ser que a medicina desenvolva protótipos de asas – ou no caso da Zoe uma baita tecnologia que faça uma pessoa com paralisia completa (significa sem movimento e sem sensibilidade) decorrente de má-formação (ou seja, não ocorrida por causa de acidente mas sim já de nascença) a se movimentar. Eu sei que a medicina avança – e sou muito feliz em viver hoje com a Zoe e não há cinquenta, há cem anos – mas tudo o que faço com a minha filha vai muito muito além de “investir em algo” na esperança de que isso lá na frente lhe faça andar.

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Por que projetamos tanta expectativa numa pessoa com deficiência? “Ah, ela vai para as paraolimpíadas!” E se não? E se não passar de uma menina gordinha ou magrelinha sentada na cadeira de rodas, feliz, curtindo as amigas e crescendo como uma pessoa normal? “Ah, ela vai mostrar para os médicos que eles estavam enganados”. E se não? Será que ela já não tem desafios suficientes em seu simples dia-a-dia, como aprender a equilibrar o tronco, a comer sozinha, a se virar da posição de costas para bruços (o que ainda não consegue) – fora os desafios do corpo “vegetativo” como manter a bexiga sadia, o intestino trabalhando, o liquor cerebral fluindo na medida certa etc. Além de tudo isso, ainda tem que ser mais? Engraçado, quando minhas outras filhas nasceram ninguém ficou falando que ela talvez um dia irão para as olimpíadas… Que estranho, será que não confiam nelas?😕

O que em mim se vê orgulhosa e satisfeita com a vitória e superação da minha filha? É claro que toda mãe e todo pai quer o melhor para seu filho, deseja sucesso e muitas conquistas. Mas será que eu não posso ser vitoriosa pelos meus próprios passos? Por que me esconder atrás dos passos dela? É muita pressão gente! E muito prejuízo na minha própria vida não vivida.

Que eu saiba ser adulta, brilhando meu próprio brilho, chorando minha própria frustração. Que eu seja responsável tanto pela minha alegria quanto pela minha tristeza.

Que minhas filhas possam encontrar em mim uma mãe que lhes acompanha, apoia e orienta. Que elas me vejam vivendo minha vida, realizando meus sonhos, lidando com meus desafios e limitações.

Que minhas filhas possam ser felizes, cada uma da sua maneira, fazendo escolhas guiadas por aquilo que sonham e são capazes de fazer. Que elas encontrem pessoas que lhes apoiem, respeitem, inspirem e acreditem nos seus potenciais.