Antidepressivos para crianças e adolescentes na Alemanha

por Bruna M. Euringer

Na última semana, o jornal Frankfurter Allgemeine publicou uma reportagem
sobre um estudo internacional que procurou identificar os padrões de uso de
antidepressivos entre crianças e adolescentes entre 2005 e 2012 em cinco países
ocidentais. Este estudo, que saiu na edição de março do European 
Neuropsychopharmachology, revelou dados interessantes sobre o atendimento
em psiquiatria infantil e do adolescente aqui na Alemanha.

A grande motivação do estudo foi tentar identificar o que aconteceu neste
período com as prescrições destes medicamentos nesta população, logo após o
FDA (agência regulatória de saúde americana), em 2004, ter solicitado às
empresas fabricantes que incluíssem na bula um aviso sobre o risco de alguns
antidepressivos elevarem a possibilidade de ideação suicida nesta faixa etária. A
princípio, teria havido uma redução no número de prescrições, porém o estudo
quis verificar se nos anos subseqüentes esta tendência se mantivera.

Em todos países envolvidos (Alemanha, Dinamarca, Reino Unido, EUA e
Holanda), houve um aumento do número de prescrições. Na Alemanha, o
aumento foi de 50%. Ou seja, entre 2005 e 2012, o número de crianças tratadas
com antidepressivos dobrou.

Mas será que isso é motivo de alarme ou preocupação? Aparentemente, segundo
os dados apresentados, há sim motivo de preocupação, mas não este. “Não
prescrevemos excessivamente na Alemanha”, comentou o autor do estudo,
Christian Bachmann, ao Frankfurter Algemeine. Em 2012, cerca de 0,5% das
crianças e adolescentes faziam uso de antidepressivos na DE. No entanto,
segundo as estatísticas, transtornos depressivos acometem 3% das crianças pré-
púberes e 6% dos adolescentes. Se pensarmos que estas medicações são úteis
não só para este tipo de transtorno, mas também para quadros ansiosos,
transtorno obsessivo compulsivo e distúrbios alimentares, há provavelmente um
grande volume de crianças e adolescentes que precisariam de tratamento, porém
que não o estão recebendo.

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É verdade, no entanto, que, para esta população, a primeira opção de tratamento
não é necessariamente o tratamento medicamentoso. Em 2013, a Deutsche
Gesellschaft für Kinder- und Jugendpsychiatrie, Psychosomatik und
Psychotherapie (DGKJP) publicou seus mais recentes guidelines sobre
tratamento de depressão e colocou a psicoterapia como primeira escolha
terapêutica. Fluoxetina também é tratamento de primeira linha, mas não precisa
ser usado em todos os casos. Outros antidepressivos, mais especificamente
escitalopram, citalopram ou sertralina, todos classificados como inibidores
seletivos da recaptação de serotonina, também podem ser utilizados, no caso de
haver algum impedimento para o uso da fluoxetina. Já outras medicações,
incluindo os chamados antidepressivos tricíclicos, devem ser evitadas – seja por
falta de segurança, seja por falta de comprovação de benefício nesta faixa etária.

E é aí que os dados levantados pelo estudo liderado por Bachmann chamam a
atenção. Aqui na Alemanha, fluoxetina e citalopram eram as medicações mais
prescritas – até 2012, pelo menos –, porém cerca de um quarto das prescrições
ainda eram de tricíclicos, em quantidade bem maior do que em outros países.
Além disso, em nenhum país se prescreve tanta erva de São João (Johanniskraut,
ou Hypericum perforatum) quanto aqui. Os efeitos desta erva não foram
documentados em nenhum ensaio clínico e seus efeitos adversos (agitação, boca
seca, pesadelos, entre outros) sugerem cautela em seu uso.

No entanto, com a publicação dos guidelines em 2013, é possível que este
cenário já esteja mudando ou venha a mudar nos próximos anos.

Depressão em crianças e adolescentes é assunto ainda pouco comentado e
envolvido em controvérsias. No entanto, a infância como lugar exclusivamente
de sonho, alegria contínua e felicidade é um ideal adulto que não tem como ser
correspondido na prática. Contardo Calligaris escreveu em 2004 um texto lindo
sobre o assunto na Folha de SP. Nele, o psicanalista critica as nossas projeções de
adultos sobre o que ele chamou de “deveres” das crianças e também o excesso de
medicalização das tristezas da infância. Vale a leitura.

Ele tem razão; no entanto, é provavelmente difícil saber onde está o meio termo.
A DGKJP inclui como possibilidade terapêutica para os quadros depressivos leves
o chamado “watchful waiting”, a observação da evolução com acompanhamento
cuidadoso e suporte.

Fato é que o abandono, os maus tratos, abuso físico e sexual, problemas
familiares e sociais diversos (pais agressivos, pais que abusam de álcool e
drogas, violência doméstica, divórcios…), morte na família, doenças crônicas,
bullying, imigração e outros eventos da vida podem desencadear sintomas físicos
e psíquicos em crianças e adolescentes – alguns potencialmente graves, como
ideação e até tentativa de suicídio (especialmente na entre adolescentes).

Não é tema facilmente digerível. Mas precisa ser encarado com seriedade e
menos idealização. Pela saúde e pelo futuro de nossos filhos.

Links e referências:

FAZ – Veraltete Antidepressiva für Kinder mit Nebenwirkungen

Bachmann CJ et al. Trends and patterns of antidepressant use in children and
adolescents from five western countries, 2005–2012. European Neuropsychopharmachology March 2016; 26(2): 411-19

Dolle K., Schulte-Körne G. The Treatment of Depressive Disorders in Children
and Adolescents. Dtsch Arztbl Int 2013; 110(50): 854-60.

Folha de SP – Contardo Calligaris, O direito à tristeza