Coleções de livros em alemão 4

Algumas dicas bacanas de coleções a partir dos 10 anos.


Charlie Bone und das Geheimnis der sprechenden Bilder

de 10 a 12 anos

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Charlie Bone é um garoto normal, pelo menos é o que ele pensa, até que uma foto fala com ele. Sua avó fica radiante, porque constata que ele tem um dom especial . Por isso, ele vai para o internato,  Bloor-Akademie, para crianças com dons especiais. Lá ele faz dois novos amigos:  Olivia e Fidelio. Num estilo meio Harry Potter, os livros narram as aventuras fantásticas destas crianças.

https://www.amazon.de/Charlie-Bone-Geheimnis-sprechenden-Bilder/dp/3473523240/ref=pd_sim_14_14?ie=UTF8&dpID=51Ce70haOKL&dpSrc=sims&preST=_AC_UL160_SR108%2C160_&refRID=SNS7KMA57GX074D8VR2A

Gregor und die graue Prophezeiung

de 10 a 12 anos

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Os livros foram escritos pela autora de Panem, sucesso literário e de Hollywood. Gregor e sua irmã vão parar no submundo de Nova Iorque, onde habitam as mais estranhas criaturas. Sim, o livro é meio de horror. Mas as criaturas como baratas, ratos, aranhas, morcegos adquirem personalidade e formas inteligentes de se expressar.

https://www.amazon.de/Gregor-graue-Prophezeiung-Suzanne-Collins/dp/3841500021/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1465752104&sr=8-1&keywords=gregor

Die Glücksbäckerei – Die magische Verwandlung

a partir de 10 anos

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Uma história cheia de mágica, que se passa dentro de uma confeitaria. A personagem principal tem 12 anos e com ela se identificam as leitoras desta faixa etária.

https://www.amazon.de/Die-Glücksbäckerei-magische-Verwandlung/dp/3737340080/ref=pd_sim_14_56?ie=UTF8&dpID=6148SQML2lL&dpSrc=sims&preST=_AC_UL160_SR104%2C160_&refRID=4TM167QXAQP7ZMKG4FVD

Carlotta, Band 1: Carlotta – Internat auf Probe

de 10  a 14 anos

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Esta coleção já foi uma das preferidas da minha filha. Carlotta é uma menina comum meio caótica, que vai estudar num internato. Suas aventuras, amizades e interesses são narradas de forma que meninas se identifiquem com ela. Dagmar Hoßfeld é uma das autoras de Conni e conhece bem seu público alvo.

https://www.amazon.de/Carlotta-Band-Internat-auf-Probe/dp/3551314691/ref=sr_1_5?ie=UTF8&qid=1465753793&sr=8-5&keywords=carlotta

Rubinrot – Saphirblau – Smaragdgrün: Liebe geht durch alle Zeiten. Die Trilogie im Schuber

de 12 a 15 anos

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Esta é uma coleção de apenas três livros, que viraram filmes também. Minha filha amou estas histórias meio fantásticas! A personagem principal é Gwendolyn, 16 anos, que mora em um casarão em Londres. Ela vive aventuras em que viaja no tempo e descobre o primeiro amor. Romances para suspirar!

https://www.amazon.de/Rubinrot-Saphirblau-Smaragdgrün-Zeiten-Trilogie/dp/3401600400/ref=pd_cp_14_3?ie=UTF8&refRID=4R72HZBW2GMC1VQNDHKH

Tintenherz de Cornelia Funke

 de 12 a 14 anos

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Cornelia Funke é uma autora muito conhecida na Alemanha. Ela escreveu muitos livros infanto-juvenis. Tintenherz é o primeiro da série, onde ela narra a vida do contador de histórias Mo e sua filha Meggie. Meggie é leitora ávida. E Mo trabalha com livros antigos. O livro foi filmado em Hollywood e o filme ficou maravilhoso também. Minha filha leu este livro quando tinha uns 9 anos. Algumas passagens são fortes e meio assustadoras, mas a história é brilhante e me faz lembrar a criatividade da J.K. Rowling.

https://www.amazon.de/Tintenherz-Cornelia-Funke/dp/3841500129?ie=UTF8&qid=1465754929&ref_=la_B001ILHLGQ_1_1&s=books&sr=1-1

 

Silber – Das erste Buch der Träume: Roman

a partir de 14 anos

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Da mesma autora da coleção com o nome das pedras preciosas, Kerstin Gier, estes livros começaram a ser lançados no ano passado. Liv Silber tem 16 anos, e tem que se mudar mais uma vez junto com a sua mãe e irmã para um novo país, desta vez para Londres. Liv vai passar a ter uma família  Patchwork, já que sua mãe vai se juntar a um inglês que tem dois filhos também. As aventuras de Liv se relacionam aos seus sonhos vívidos com os dois novos irmãos da família. Chega um ponto da história em que ela não sabe mais o que é realidade e o que é sonho. Minha filha já leu os dois primeiros livros e amou o enredo. Pena que também são apenas três livros que compõem a coleção!

https://www.amazon.de/Silber-erste-Buch-Träume-Roman/dp/3841421059/ref=sr_1_2?s=books&ie=UTF8&qid=1465754400&sr=1-2&keywords=silber

Escola em tempo integral

Nem toda escola tem o perfil de escola em tempo integral    

Na Alemanha, vêm surgindo cada vez mais escolas em tempo integral. Porém,  os investimentos com pessoal variam bastante, conforme cidade e estado, onde a escola se localiza.

A diferença entre as escolas é bem grande e eu já toquei neste tema em outros textos, também. Veja a categoria escola no blog, se lhe interessar ler mais a respeito. Há diferenças no que toca a carga horária e na quantidade de pessoal empregado, segundo a  Bertelsmann Stiftung.

Avaliando o valor gasto para manter pessoal adicional nas escolas secundárias, o estudo revelou que enquanto em Sachsen, por turma e por ano, se gasta 1.300 €, em Rheinland-Pfalz são  37.000 €. É uma diferença muito grande! Segundo o estudo, cerca de 60% das escolas oferecem ensino em tempo integral, enquanto há 15 anos atrás era uma escola para cada cinco.  A iniciativa de oferecer mais escolas que funcionem em dois turnos ainda apresenta grandes problemas em termos de qualidade e depende muito do estado alemão, onde a escola se encontra.

No ensino fundamental, o estudo verificou que a média de horas adicionais por semana gira em torno de 14 horas, para que a escola alcance o status de escola em tempo integral. Em escolas secundárias, a média é mais baixa: apenas 8 horas. Enquanto em  Thüringen, Sachsen e Nordrhein-Westfalen  somente 8 horas adicionais seriam necessárias para alcançar o ideal, em Hessen faltam 22 horas!

Os estados de Hessen e Bremen são os que têm o maior déficit !

O presidente da Bertelsmann Stiftung, Jörg Dräger, acredita que nem todas as escolas poderiam levar o carimbo de escola em tempo integral e que seria necessário criar padrões a nível federal, para que as mesmas chances de estudos fossem oferecidas no país todo. O caminho é longo, e seria necessária mais transparência a cerca da infraestutura das escolas e um debate deve ser iniciado sobre necessidades temporais e de pessoal das escolas.

Temos uma filha em uma escola secundária em tempo integral. Demos sorte de morar em Hessen, na fronteira com Rheinland-Pfalz, onde o ensino é melhor e de haver a possibilidade de estudar no outro lado do Reno. Atualmente nossos filhos estudam em estados diferentes e podemos notar também as diferenças entre eles. Hessen é um estado com mais problemas nesta área, apesar de não ser um estado pobre. Creio que a questão básica é a prioridade que o governo estadual dá ao tema educação.  Na escola de ensino fundamental do meu filho falta pessoal, tanto professores quanto auxiliares, que se incumbem de questões administrativas, há pouco controle nos pátios, onde ocorrem agressões físicas e probleminhas que acabam ficando sem a supervisão de um adulto :-(.

Fontes: Zeit

Inclusão

Um artigo do Frankfurter Allgemeine Zeitung me faz escrever este texto rapidinho. O artigo fala de um caso de inclusão numa cidade pequena perto de Fulda, no estado de Hessen. O exemplo de inclusão se trata de uma garotinha da segunda série que só tem 5% de visão. Ela estuda em uma escola pública inclusiva, diferente de muitas outras crianças com problemas bem menos graves que estudam em escolas especiais aqui, na Alemanha.

Sei de crianças com transtornos visuais, auditivos, de linguagem, e até de filhos de brasileiros, que não foram aceitos em escolas públicas aqui, ou porque as escolas próximas de suas casas não eram inclusivas ou porque as escolas não se sentiram capazes de atender àquela criança. Quando escrevo escolas especiais, me refiro ao modelo de Förderschule, na Alemanha. Existem vários tipos destas escolas espalhadas na Alemanha. As mais comuns são as dedicadas a problemas de fala, de visão ou audição. Nem sempre há uma escola próxima de onde as famílias moram e quando o tipo de transtorno não é muito claro, a criança pode frequentar uma escola dedicada a problemas de fala, mesmo não apresentando problemas desta ordem. É o caso de uma escola na cidade vizinha aqui. Crianças que não se adaptaram à escola local nas primeiras séries foram enviadas para a esta escola dedicada a problemas de fala. Esta não me parece ser a solução ideal e lamento pelas crianças e até professoras que têm que trabalhar neste esquema improvisado.

Bem, eu não sou especialista neste assunto, apenas tenho lido bastante a respeito. Sei que a inclusão vem sendo discutida tanto no Brasil quanto na Alemanha na última década com mais ênfase, e acho que muitos pais agora vão desbravar esta floresta cerrada, para abrir caminhos e picadas das quais outros pais no futuro irão se beneficiar.  Ainda no século passado, famílias escondiam filhos com alguma deficiência. Hoje em dia, esta postura está ultrapassada e já sabemos que crianças sem deficiência só têm a lucrar, se tiverem contato com crianças que tenham deficiência física, que sejam down, que sofram de algum transtorno etc. Minha cidade aqui oferece uma colônia de férias inclusiva, com a participação de uma associação de deficientes. Matriculei meu filho para participar dela no outono e estou bem curiosa para ouvir suas experiências.

Voltando ao artigo, acredito que a menina cega deu sorte em poder frequentar uma escola, onde sua própria professora tem um filho com a mesma deficiência. Além desse “bônus” ela tem uma pessoa que a acompanha durante as aulas e auxilia em diferentes situações. Segundo a professora, no caso desta menina, a inclusão está funcionando muito bem. O que fica claro também, lendo este artigo é que o caso da menina teve uma definição de ajuda desde o início, já que a deficiência é bem “óbvia”. Mais complicados são os casos nebulosos, onde a deficiência ou transtorno ou dificuldade não são claramente diagnosticados, e, mesmo assim, a criança vai para a escola pública sem acompanhamento diferenciado e a professora se sente sobrecarregada com uma turma de 25 alunos, dentre  ele alguns que não acompanham a aula direito. Foi o caso da turma do meu filho: eles já retiraram duas crianças e enviaram para a escola especial que comentei, e um menino agora tem uma auxiliar dedicada a ele, por conta de TDAH.

Segundo a professora do artigo, que me parece muito otimista,  a inclusão pode sim funcionar, porém não é adequado generalizá-la. Ela depende de três fatores: 1. o tipo de deficiência, 2. a motivação e a preparação dos professores e 3. a cooperação com os pais e professores especializados.

O sistema de ensino alemão como um todo precisa de uma reforma. Se investe pouco nas escolas, as turmas são grandes, faltam professoras, faltam cursos de especialização. O processo está só começando e acho que ainda vai levar muitos anos para uma reforma de fato ocorrer. Quem viver verá 🙂 !

Fonte:
FAZ – Frankfurter Allgemeine Zeitung

Spiegel – Henri no ginásio?

Crianças desacompanhadas no caminho para a escola

Existem muitas diferenças culturais com as quais nos confrontamos quase diariamente, morando aqui na Alemanha. Me lembro que uma das coisas que me chocou, quando vim morar aqui, foi ver crianças de 6 anos de idade no caminho para a escola sem um adulto acompanhando. Eu não era mãe naquela época, mas mesmo assim estranhei o fato, pois no Brasil de hoje as crianças são levadas e buscadas pelos pais de/para a escola até estarem quase com dezoito anos. Em tempos de histórias macabras estilo Natascha Kampusch é sempre bom refletir sobre o assunto.

Em 1970, aqui na Alemanha, cerca de 91% dos alunos do ensino fundamental iam sozinhos para a escola. No ano de 2012, o número caiu para 50%, conforme uma pesquisa do instituto Forsa. Aparentemente os pais estão mais inseguros com relação aos seus filhos. Eles têm medo do trânsito ou de alguém fazer mal às crianças.

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Quando meu filho poderá ir sozinho à escola e ao que devemos prestar atenção?

Plaquinhas com os dizeres: “Ab hier schaffen wir das allein!” – a partir daqui consigo ir sozinho – se encontram em lugares estratégicos da escola, para motivar os pais a deixarem os filhos irem sozinhos. Às vezes, elas se encontram no último cruzamento antes de chegar na escola, muitas vezes na escada dentro da escola, já que muitos pais prefeririam levar seus filhos até a porta da sala de aula.

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As crianças de 6 ou 7 anos dão conta com certeza de fazer o caminho para a escola afirma Martin Kobusynski da Polícia de Hamburgo: “Uma possibilidade é que os pais acompanhem os filhos no início das aulas. Porém, nós aconselhamos que as crianças se acostumem a fazer sozinhas alguns dos percursos diários que têm que fazer, não só para a escola como também para outras atividades, perto de casa. É possível treinar com as crianças como fazer estes caminhos e como lidar com situações mais críticas.”

Às vezes a pergunta a ser feita é outra: Quando estarei preparada/o como mãe ou pai para deixar meu filho ir sozinho à escola? Porque, apesar dos alemães verem a criança desacompanhada como algo normal, para nós brasileiros exige deixar para trás as neuras de assaltos e perigos iminentes com as quais convivemos durante muitos anos, no nosso Brasil. Uma das razões pelas quais muitos de nós moram aqui é a segurança. Tudo bem, na Alemanha existem lugares perigosos também, mas a violência é menor. Acredito que, se a mãe tem medo, ela passa este aos filhos naturalmente, sem nem sentir. Então, primeiro é necessário que a mãe se sinta segura no lugar em que mora.

Perigos: outros adultos e conflitos com outras crianças

A maioria dos pais têm medo que adultos, supostamente oferecendo doces, ganhem a confiança da criança para fazer coisas que nem gostaríamos de imaginar. Porém, esta situação acontece raramente ou quase nunca, segundo a polícia de Hamburgo. Um dos maiores problemas que as crianças enfrentam no seu caminho para a escola são os conflitos com outras crianças, às vezes mais velhas, que podem levar até a agressão física. Importante é conversar com a criança sobre estas possibilidades, imaginar as situações junto com ela e buscar alternativas de apoio, conversando com ela, como por exemplo: definir o caminho mais seguro, que não obrigatoriamente é o mais curto, escolher “ilhas de segurança” que podem ser lojas, cafés, padarias ao longo do caminho ou até mesmo a casa de um amiguinho, que mora mais perto da escola.

Uma alternativa muito comum é que a criança ande em grupo sempre, com amiguinhos que já se conhecem e se apoiam em alguma situação fora do normal. A regra de não falar com estranhos deve ser sempre reforçada, e para manter a distância recomenda-se que a criança seja formal e utilize a palavra Sie no lugar de Du, quando se comunicar com alguém desconhecido.

Treinamento do percurso a pé

Com meus filhos, treinamos o caminho para a escola durante vários meses, muito antes da escola iniciar, quando eles tinham 6 e 5 anos, respectivamente. Nós os acompanhamos por um tempo, a mais velha por uns 6 meses, o mais novo por menos tempo, pois ele já estava mais familiarizado com a cidade, por conta de ter uma irmã mais velha. Nós adotamos também a prática da criança ir à frente, mostrando o caminho, depois fomos acompanhando só numa parte do trajeto, por exemplo gradativamente 3/4 do caminho, deixando eles fazerem 1/4 sozinhos, depois 2/3 do caminho, 1/3 eles sozinhos, depois metade do caminho etc…. E na volta da escola, encontrando com eles no meio do caminho, por exemplo.

A regra número 1 que estabelecemos com eles foi, se algum adulto estranho abordá-los e parecer trazer algum tipo de perigo consigo, jogar a mochila pesada no chão e correr, além de gritar em altos brados que algo estranho estaria acontecendo. Isto felizmente nunca aconteceu. No começo, eles às vezes relatavam uma insegurança e contavam que haviam corrido, sem jogar a mochila. Nós então os acompanhávamos novamente ou íamos escondidos bem atrás, para checar se havia algo de errado.

Na minha opinião, o mais importante é trabalhar a auto-estima da criança, assegurar que existe confiança mútua. Nós não teríamos mandado nossos filhos sozinhos para a escola, se tivessemos sentido que eles têm medo da situação. Mostramos a eles que tínhamos confiança e que acreditávamos que eles iriam conseguir fazer o caminho sozinhos, com amiguinhos. Importante dizer aqui que moramos em cidade pequena, que conhecemos muitas famílias na cidade e que as famílias também ficam de olho aberto, caso estejam fazendo o percurso com seus filhos. Eu mesma já intervim em brigas e pequenos conflitos entre crianças. É subentendido que os adultos zelem pela segurança das crianças, mesmo que elas não sejam seus filhos. Adultos também não oferecem carona, pois sabem que as crianças são instruídas a recusar claramente.

Pode andar de patinete ou bicicleta para a escola?

A escola também tem a expectativa de que as crianças façam o trajeto a pé, sem usar bicicleta ou patinete. Algumas escolas inclusive fazem projetos de competição entre as turmas, para descobrir qual turma tem mais alunos que fazem o percurso a pé. Segundo a escola da minha cidade, o seguro da escola cobre o percurso para a escola a pé, mas não se a criança estiver usando patinete (Roller) ou bicicleta. A bicicleta só pode ser usada, caso a criança tenha passado no teste para tirar a carteira de bicicleta (Fahrradführerschein), que acontece no fim da 3a. ou 4a. série. A escola explica que a caminhada antes de chegar à escola tem muitos benefícios: a criança acorda e fica mais atenta, a criança já gastou um pouco de sua energia, a criança interage com coleguinhas ao longo do caminho, a criança ganha autonomia e auto-estima etc…

Crimes e acidentes envolvendo crianças

Segundo a polícia de Frankfurt, não há estatísticas sobre crimes no caminho para a escola. Não há casos documentados de violência ou assaltos a crianças no trajeto escolar, no ano de 2012, ano em que foi publicado o artigo que usei de fonte aqui. Porém, na mídia são noticiados crimes em cidades maiores, como Hamburgo, ou assassinatos até em cidades menores que viram manchete de jornal. Enquanto nos anos 70 aconteciam 4,7 acidentes de trânsito para 1.000 crianças, em 2010 foram apenas 2,7. Talvez seja importante avaliar a região onde se mora, ler atentamente as notícias, pedir informações na própria escola (às vezes a própria escola faz recomendações de trajetos) ou na prefeitura. Cada família deve avaliar os riscos para si própria. Não adianta querer fazer igual à família vizinha e enviar a criança insegura para a escola.

E se eu for levar e buscar meu filho de carro?

Interessante também é que nas escolas onde há maior percentual de crianças que são levadas e buscadas de carro pelos pais, o número de acidentes é maior, já que o próprio trânsito de carros pode colocar em risco as crianças que vão a pé para a escola. No ano passado, na nossa cidade pacata, 3 crianças foram atropeladas pelo carro do avô do coleguinha, na frente da escola! Parece que no estado de Nordrhein-Westfallen o percentual de crianças que são entregues de carro é bem alto. E é um dos estados com maior concentração populacional por metro quadrado, além de ter regiões com problemas sociais mais complexos.

Em algumas zonas escolares, é necessário policiamento especial, ou alunos mais velhos e pais têm que se ocupar da organização do trânsito nas entradas da escola. As cidades alemãs costumam ter ruas estreitas, que não comportam um trânsito mais intenso. Algumas escolas não possuem nem estacionamento próprio, ou são localizadas numa zona residencial ou comercial, onde o trânsito não funciona nas horas de entrada e saída da escola.

Transporte público – quando meu filho pode usá-lo?

Quando nossa filha foi aceita na escola secundária na cidade maior aqui perto, que é a capital do estado vizinho, tivemos que nos preocupar com o fato de ela ter que pegar 2 ônibus para chegar na escola. Porém, ela já conhecia bastante a outra cidade, já havíamos andado bastante de ônibus até lá e ela iria de ônibus para a escola com várias coleguinhas daqui. Treinamos o trajeto com ela algumas vezes e a acompanhamos nos primeiros dias, nos revezando com os pais dos colegas. Foi bem tranquilo e em pouco tempo ela já estava arriscando vôos mais altos, como ir até o centro da cidade, fazer umas comprinhas de material ou pequenas coisinhas para ela. Isso com 10 anos de idade.

Não acredito que, morando em uma cidade maior, eu teria permitido à minha filha fazer o caminho da escola de ônibus ou metrô, ainda na escola primária. Para pegar condução, imagino que  a criança tenha que ter um pouco mais de maturidade, iniciativa e noção de perigo. Mas existem crianças pequenas em cidades maiores fazendo o caminho já no transporte público. A decisão é da família, com certeza.

Conversa sobre perigo nas ruas deve ser iniciada cedo

Muito antes da criança começar na escola, é importante já conversar com ela sobre os perigos que existem no mundo. Não precisa ser um papo para assustá-la e deixá-la com medo, mas sim esclarecer em quem ela pode confiar, o que ela deve fazer, se estiver insegura. Para isso, existem muitos livrinhos bacanas, tanto em alemão quanto em português.

Da série Conni há por exemplo um livrinho muito bom, chamado LESEMAUS, Band 137: Conni geht nicht mit Fremden mit (Conni na Amazon). Outro do Lesemaus, que gostávamos muito de ler é LESEMAUS, Band 4: Max geht nicht mit Fremden mit (Max na Amazon). Em português há O livro das emergências – O que toda criança esperta precisa saber sobre segurança, da Aline Angeli (Aticascipione). E a Ruth Rocha escreveu alguns livros sobre medo, que também recomendo.

Para falar mais sobre segurança com as crianças, achei estes dois textos muito bons: Mdemulher – como-ensinar-nocoes-de-seguranca-para-uma-crianca-pequena e Riokids.com.br – falar-com-estranhos.

Apesar de inicialmente eu ter tido muito receio de deixar minha primeira filha seguir seu caminho sozinha, já que venho do Rio de Janeiro, hoje em dia não me arrependo de tê-lo feito. Meus dois filhos curtem ter sua autonomia e saber que nós confiamos neles, e eu ganho bastante tempo, pelo fato de não ter que levá-los e buscá-los a todos os lugares. Nossa associação de esportes, por exemplo, é ao lado da escola. Às vezes vou buscá-los de surpresa, ou quando minha filha quebrou a perna, tive que levá-la e buscá-la por alguns meses. Faz parte do meu job de mãe!

E especialistas, segundo o Zeit, acreditam que esperar até a adolescência pode ser um erro, pois então nesta fase, o jovem pode ficar sobrecarregado com a expectativa de ter que encarar sozinho o caminho mais complexo para a escola secundária, que por si só já é um desafio, além das outras questões da adolescência, como também pode ignorar os perigos, por falta de experiência e pelo falso  sentimento de coragem que a adolescência traz consigo.

Fontes:

NDR

FAZ

Zeit

Reunião de pais na escola

Não esqueço de quando aprendi inglês na adolescência e a professora comentou que uma das provas de fogo para confirmar o conhecimento de uma língua era falar ao telefone no idioma estrangeiro. Pois bem, acho que passei mais de 10 anos aprendendo alemão no Brasil até finalmente vir à Alemanha pela primeira vez. E isso faz tanto tempo que eu prefiro nem mencionar o ano, para não entregar minha idade. E eu cheguei aqui, peguei um trem em Frankfurt para ir a Freiburg, o controlador me pediu meu bilhete e meu alemão travou, fiquei nervosérrima e não conseguia nem falar inglês. Branco total radiante!

Quando minha filha entrou na escola, eu já morava há uma eternidade aqui, na Alemanha. Já havia trabalhado muitos anos em alguns bancos em Frankfurt, já conhecia muitas cidades, alemães etc e tal. Fui para à primeira reunião de pais sem saber o que me aguardava. Vivo numa região com muitos imigrantes, quase metade da turma de 1a. série da minha filha era de estrangeiros. Então, na tal reunião, a professora engatou um papo sobre a matéria em matemática e eu boiei, como há muito não boiava. Percebi porém que não estava sozinha, pois havia ali perto de mim uma italiana que nem alemão falava. E o tempo passou e cada vez menos estrangeiros participavam das reuniões, no final era só uma meia-dúzia de gatos pingados mesmo.

Reuniões de escola podem ser bem chatas, mas ainda assim acredito que elas têm sua função. De vez em quando é importante ver a(s) professora(s), se informar sobre como caminham as aulas, onde a turma está com a matéria e tem os eventos também. Importante saber quando vai ter passeio, visita de museu, festa de confraternização. E é bom também visualizar os pais das crianças, mesmo que não seja possível fazer a correspondência entre quem é pai ou mãe de que filho ou filha, ainda mais quando a criança já está na escola secundária. Pode ser interessante ouvir da professora o que ela pensa sobre aquele grupo de crianças, por exemplo: a da minha filha chamou a turma de extremamente exigente no quesito albergue. A expectativa de muitas crianças era de um hotel de 5 estrelas, numa viagem da classe, segundo a professora. O professor de matemática disse aos pais para deixarem os seus filhos em paz, afinal eles são crianças e não têm que ficar enterrados nos livros. Meu marido adorou este professor!

O marido e eu fazemos um certo rodízio para ir às reuniões dos nossos filhos. Não costumamos arrumar baby-sitter para ficar com as crianças e não os deixamos sozinhos, porque nosso filho é muito criativo. E temos alguns outros compromissos do nosso “Jugendamt”, para os quais engajamos os pais do meu marido. Então, é sempre muito interessante ouvir o marido contar sobre sua percepção da reunião de pais. Bem, ele é alemão, foi criado aqui, conhece o sistema escolar e se atém a detalhes para os quais eu não dou muita bola. Quando eu faço meu relatório para ele, ele dá algumas risadas pelos meus comentários a cerca da aparência das pessoas ou de sacações que ele não tem. Aprendi a pedir a ele   para fazer anotações (dou um caderninho na mão) e a escrever as datas importantes no calendário, porque senão depois eu fico perdida. Para ele nada é tão importante assim.

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Na primeira reunião de pais da 1a. série, costuma-se fazer a eleição do representante de pais, que vai interagir com um grêmio (Elternbeirat). Em geral, são duas pessoas elegidas, uma é o substituto além do titular. Na minha primeira experiência, percebi que alguns pais se ofereciam muito rapidamente, para fazerem a eleição e escreverem o resultado num papel. Depois eu entendi o porquê: estas pessoas não podem se candidatar e utilizam deste subterfúgio para escaparem da eleição.

Além das reuniões com todos os pais, há também as reuniões individuais (Elternsprechstunden), para falar especificamente do filho ou filha. Aproveito sempre a oportunidade para escrever minhas dúvidas e questões para serem discutidas com a professora. Se não o faço sei que periga esquecer algo importante. Este tipo de reunião é uma oportunidade maravilhosa para receber um feedback sobre a criança, para ouvir a visão que a professora tem do filho e para pedir auxílio, caso alguma coisa esteja meio fora dos trilhos.  Tem professoras que são tão modernas que até fornecem seu número de celular ou email, o que pode facilitar bastante a comunicação. Boa parte da comunicação pode ser feita através de bilhetes mesmo e eu utilizo bastante essa possibilidade, porque tenho um pouco de pena de invadir a privacidade da professora.

Alemanha – estado laico? Aula de religião nas escolas públicas

Nesta semana, eu estava lendo um artigo no Frankfurter Rundschau sobre as aulas de religião islâmica aqui no estado onde moro, Hessen. Existem cerca de 50 escolas públicas de ensino fundamental que oferecem o ensino da religião islâmica (sunita – a “menos” radical), certamente porque o número de crianças muçulmanas  na região é elevado.  Segundo o artigo, a experiência com as aulas tem sido positiva e a integração entre diferentes nacionalidades tem dado bons frutos.

Aproveito então para escrever sobre as aulas de religião em escolas públicas alemãs, conforme minha visão. Não sou uma pessoa religiosa e não pertenço a uma igreja aqui. Meu marido porém sim. Inicialmente constatar que uma escola pública oferece aulas de religião pode chegar a chocar, mesmo para quem vem de um país ditamente católico como o Brasil. Porém, aqui há razões históricas pelas quais o ensino de religião continua firme e forte.

Aulas de religião fazem parte do programa de escolas públicas de quase todos os países europeus, à exceção apenas da França e da Albânia. Mas sua organização é tão variada quanto as tradições religiosas no continente.


Cada país tem suas próprias regras

“Cada aula de ensino religioso traz consigo sua própria história”, explica Peter Schreiner, presidente da Comissão Intereuropéia para Igreja e Escola (ICCS). “Pode-se até fazer comparações, mas não haverá uma regra que seja aplicável em todos os países.”

Cada país europeu decide hoje por si próprio como o ensino religioso é organizado, desenvolve os planos de ensino e estabelece o material didático necessário, treina e contrata professores, além de criar alternativas para alunos que não queiram participar das aulas de religião.

Várias modalidades

“Os mapas religiosos são muito diferentes na Europa”, argumenta Schreiner. E a maneira como cada país lida com o ensino religioso reflete essas diferenças: no Sul da Europa, na Europa Central e no Leste Europeu, bem como na região da Alsácia-Lorena, na Finlândia, Itália, Áustria e Alemanha, o ensino religioso é separado por religião.


A França proibiu o uso do véu islâmico nas escolas de todo o país.

 

Outros países oferecem um ensino religioso conjunto, que chamam então de ética, filosofia ou “valores e normas”. Na Bélgica, na Espanha, em Portugal e Luxemburgo, os alunos podem escolher qual das modalidades eles preferem acompanhar.

 

Obrigatoriedade
Na Alemanha, em geral, os alunos são obrigados por lei a freqüentar aulas de religião. Alguns estados oferecem a aula de ética como alternativa ao estudo da religião católica ou luterana*, e mesmo a judaica, além da islâmica, que já se difunde no meu estado. Alguns, como Baden-Württemberg, permitem que o aluno seja dispensado da aula de religião. Outros só permitem a dispensa, quando o jovem completa 18 anos, como o Saare. Outros só lecionam uma mistura de ética com filosofia, como Bremen.

A princípio a Alemanha se considera um estado laico, definido por lei (GG Art. 137 Abs. 1.) No entanto, é no quesito escola que se criou uma exceção. Me parece que a igreja tende a permanecer influente na educação, assim como continua a cobrar impostos de seus fiéis que saem diretamente da folha de pagamento das empresas, onde eles trabalham.  Nos Estados Unidos estas duas questões são impensáveis. A separação é clara entre estado e religião.  E apesar de supor que o interesse de catequisar poderia vir apenas da igreja, é o estado que tem que bancar os custos com as aulas  de religião. Pausa para meditação!

Interessante é que não existe um movimento de unificar a aula de religião, tornando-a uma cadeira de ética ou filosofia, por exemplo, o que, na minha opinião, poderia auxiliar na integração dos diferentes povos que habitam aqui. Com a abertura para a aula de religião islâmica, nos últimos anos, se abre mais ainda o leque de possibilidades. Portanto, se uma nova leva de estrangeiros por aqui aportar, tendo como credo o budismo ou hinduísmo, mais uma destas religiões teria potencial para ser ensinada na escola? Para mim esta diferenciação toda só pode gerar mais discriminação.

Em algumas escolas, é exigido que a criança frequente a aula conforme seu credo. Nossa família, particularmente burlou esta diretiva. Nosso filho não foi batizado e frequenta aulas de religião luterana. Também conheço crianças de outras religiões que optaram pela aula de ética. Minha experiência na escola local mostra que professoras de um credo lecionam sobre outro, além de que muitas delas não são praticantes e por aí vai. Então fica a dúvida, se de fato a intenção é doutrinar. Também já pude comparar o material das diferentes aulas e constatar que a diferença é mínima. Talvez em estados mais católicos, como a Baviera e Baden-Württemberg, a realidade seja diferente.

Num dos artigos que consultei, o autor afirma que a aula de religião é a única do currículo que não divulga conhecimento, apenas opiniões. Não posso concordar com ele, já que a aula de religião engloba também a história das religiões, assim como aborda as diferenças culturais, o que eu considero bem positivo. E porque não abordar estes dois temas e falar de valores numa aula abrangente de ética? Cheguei à conclusão, brincadeiras à parte, que ninguém sabe responder a esta minha pergunta.

 

Escolas particulares na Alemanha não precisam ministrar aulas de religião. E há também as escolas católicas ou luteranas. São cerca de 2 mil escolas, com nível de ensino muito bom e muita procura. Elas costumam ter um caráter semi-particular, porque são financiadas em parte pela igreja e possuem currículo um pouco diferente do padrão, se é que se pode falar em padrão. E o ensino de religião é vivido mais intensamente através de missas e cultos.
Fontes:
Frankfurter Rundschau

Deutsche Welle

Deutsche Welle

Wikipedia

Die Welt

* Traduzo “Evangelische Kirche” sempre como igreja luterana, já que, no português do Brasil igreja evangélica é a denominação mais comum para igrejas pentecostais, que aqui são igrejas que não recebem o imposto pago pelos fiéis, vivem apenas de donativos. Na Alemanha, a arrecadação de impostos é dividida entre as duas igrejas: católica e luterana.

Filhos de refugiados não querem tratamento especial

Extraído e adaptado de uma entrevista com Sarah Inal, pedagoga especializada em trauma, trabalha na organização “Children for Tomorrow”, na divisão de refugiados da Clínica universitária de Hamburg-Eppendorf (UKE). Ela dá aconselhamento a jovens e professores.


SPIEGEL ONLINE:
Muitos professores se sentem sobrecarregados, quando refugiados são colocados nas suas turmas. Com ou sem razão?

Sarah Inal: Sim e não. Muitos professores sem especialização, são obrigados a lidar com crianças e jovens refugiados, recebendo uma breve introdução sobre o assunto. Eles se sentem sós nesta tarefa árdua e isso traz medo e insegurança. Necessário é ter empatia, ter prazer em lecionar e ser aberto para poder trabalhar numa escola.

SPIEGEL ONLINE: O que dificulta a fase inicial?

Inal: A maioria das crianças que vieram para cá têm problemas psicológicos decorrentes da fuga em si, como por exemplo o medo de morrer por conta da travessia num bote. E a chegada aqui, em geral, pode transcorrer de forma bem diferente do que as pessoas imaginavam.

SPIEGEL ONLINE: O que decepciona as crianças, quando elas chegam aqui?

Inal: A insegurança que pode perdurar por meses: Será que poderemos ficar aqui? Teremos um lugar definitivo para morar? Jovens às vezes se deparam com a realidade de ter que ir à escola, o que já não fazia mais parte da realidade deles no seu país de origem. Eles não conhecem o sistema de ensino e não sabem quanto tempo irão precisar, para obter um diploma, finalizar um curso de nível técnico, quando poderão ter uma profissão. Enquanto eles permanecem nos abrigos temporários, a vida tem caráter de estado de emergência.

 

SPIEGEL ONLINE: Para complicar as aulas são em um idioma desconhecido, além de todas as novidades na escola.

Inal: Isto não é tão problemático como se pensa, porque frequentar uma escola é um enorme fator de estabilidade na vida de uma criança. Por isto, é importante que nesta fase inicial, as crianças sintam que a escola é um lugar seguro, onde se encontram pessoas em quem elas confiem. As notas são, neste primeiro momento, irrelevantes. O melhor é que crianças tendencialmente aprendem uma língua muito rapidamente. Eu presencio crianças sírias bastante mobilizadas para se adaptarem, para nao fazer nada de errado, quase obsessivas por se sentirem incluídas.

SPIEGEL ONLINE: Como os professores podem perceber que uma criança tem problemas sérios, que independem da fase inicial de adaptação?

Inal: Um sinal típico pode ser um problema com o sono. A criança nem precisa contar sobre seus pesadelos ou dificuldades para conseguir dormir. O professor pode perceber quando a criança está constantemente cansada ou quando chega atrasada com frequência.

SPIEGEL ONLINE: Como um professor pode perceber isto numa turma de 20 alunos, por exemplo?

Inal: Uma professora de uma turma de boas-vindas criou um sistema de “barômetro”, por exemplo: as crianças contam todas as manhãs, conferindo números de uma escala, se dormiram bem, se tomaram café da manha direito e como se sentem naquele dia. Assim, o professor pode perceber a médio prazo, se há algo errado com uma criança em sua turma. Dificuldades de concentração e crianças que se retraem podem ser sintomas a serem observados, também, bem como dificuldade de controlar sua raiva. Nestes casos, os professores devem procurar o diálogo com os pais ou com a pessoa responsável pela criança, caso ela esteja desacompanhada dos pais, e eventualmente buscar ajuda junto a um terapeuta, para detectar o trauma e correr atrás de ajuda.

SPIEGEL ONLINE: Uma terapia pode levar anos para ser concluída. Como os professores lidam com a agressão e a raiva incontrolada em sala de aula?

Inal: Uma forma de trabalhar isso é criando uma escala de estresse de um (relaxado, tranquilo) a dez (muito zangado). Quando o professor percebe que a criança está saindo de um estado aceitável, pergunta a ela em que patamar da escala ela se encontra. Se ela já se encontra no nível 7, por exemplo, uma alternativa pode ser tirar a criança da sala de aula, retirá-la da situação que está lhe causando estresse, deixar que ela dê uma volta do lado de fora, por exemplo. Para este tipo de situação, o ideal é ter pedagogos na escola, com background sólido, além de promover seminários e cursos extras, para auxiliar os professores a lidar com crianças refugiadas.

SPIEGEL ONLINE: Os professores precisam preparar os alunos que se encontram na escola, para a chegada de refugiados?

Inal: Filhos de refugiados nao querem ter tratamento diferenciado, desejam apenas ter uma vida normal. Devem ser apenas anunciados como novos alunos. Pode-se estimular a apresentação destas crianças, contando de onde vêm e como era sua vida no país de origem. Para que estas crianças se integrem, o mais importante é fazer novas amizades. Pais aqui podem auxiliar as novas famílias, promovendo encontros ou contando das atividades extra-escolares em associaçoes, cujas mensalidades sejam pequenas, que inclusive possam ser bancadas pelo governo.

Fonte: Spiegel.de

 

Refugiados na escola

A abertura das fronteiras para refugiados já está transformando a Alemanha em vários aspectos: sociais, culturais, econômicos e políticos. Considero a medida de Merkel bastante “emocional” e nem um pouco arquitetada, já que o planejamento e a organização estão acontecendo depois de consumada a chegada de refugiados sírios, afegãos, iraquianos, sudaneses, nigerianos etc. Estamos acompanhando um esquema “learning by doing” tão incomum na sociedade alema, considerada bastante inflexível e muito organizada. Interessante de ver, nem sempre fácil de compreender e por vezes difícil de conviver com as mudanças. Porém, não temos opção. Temos que aceitar e procurar fazer o melhor possível da situação. Afinal, se fossemos nós fugindo de uma guerra, de um país completamente bombardeado, ficaríamos felizes em sermos acolhidos num outro país.

Por aqui aportam diariamente centenas ou milhares de pessoas de vários credos, raças, culturas, níveis sociais e com expectativas das mais variadas. Entre elas estão muitas crianças, inclusive algumas desacompanhadas de suas famílias. Elas vão sendo transferidas das fronteiras no sul, em geral, para outras comunidades mais ao norte, e a responsabilidade sobre elas é transferida junto com elas, também. Assistentes sociais, funcionários da prefeitura e muitos voluntários tentam priorizar as necessidades iniciais e aos poucos, depois de um período de adaptação inicial, elas começam a ser integradas na rotina social daqui. Portanto, escolas e Kindergarten têm que dar conta de integrá-las, ensinando o básico de alemão, para que em pouco tempo elas tenham direito à normalidade da qual nossos filhos sempre desfrutaram.

Num dos artigos que li, a exigência de  vagas para Kindergarten (até os 5 anos de idade) é de 68.000, só que vagas já estao faltando há anos, principalmente em cidades maiores. Portanto crianças nascidas aqui terão que esperar bem mais tempo, até conseguirem sua vaga de direito. Sim, crianças refugiadas passam a frente na fila. Um dos motivos para isso certamente é a integração. Quanto mais rápido a criança for inserida na realidade alemã, mais chance ela tem de se integrar.  Creio que o outro motivo seja meramente o auxílio à família traumatizada, dando apoio no cuidado com os filhos menores, já que os refugiados chegam aqui sem forças, exauridos e ainda terão que enfrentar muitos outros desafios. Eles também têm que aprender o idioma, por exemplo.

A distribuição dos refugiados na Alemanha é definida pela chamada cota de distribuição ou Verteilungsquote  que depende da quantidade de imposto arrecadada e concentração de população em um estado. Assim temos mais de 20% dos refugiados alocados a Nordrhein-Westfalen,  15% na Baviera e 12% em Baden-Württemberg, para o ano de 2016, segundo o BAMF. É nestes estados que o processo vai ser mais intenso (já está sendo aliás) e onde a população local vai se confrontar mais com as questões dos refugiados.

Além das diferenças culturais e linguísticas, as crianças refugiadas muitas vezes chegam aqui muito traumatizadas, o que implica num trabalho hercúleo por parte das instituições que passam a tomar conta delas, numa parte do dia.

Fabian Hueppe/AFP Photo - 23/9/15

Desenho feito a mão por uma criança síria, sobre a crise migratória

O número de crianças refugiadas é estimado em pelo menos 200.000. Atualmente, nas escolas, a maioria dos filhos de refugiados, a partir de 10 anos de idade, está nas chamadas “classes de boas-vindas”, classes de integração nas quais geralmente ficam exclusivamente entre eles, sem colegas de classe alemães, o que dificulta consideravelmente a boa integração. Nestas classes, o objetivo é o aprendizado do idioma. Ao alcançar um patamar considerado aceitável, eles sao removidos para as turmas normais, onde passam a ter contato com alemães e outras crianças que vivem aqui há mais tempo aqui.

Uma associação de professores alemães recomenda a redução do número de filhos de refugiados nas turmas de integração, onde geralmente são maioria, e a adoção de um sistema de cotas para otimizar a adaptação. Cada turma teria no máximo 30% de crianças refugiadas para favorecer o aprendizado do idioma alemão. Quando a proporção de crianças cuja língua materna não é o alemão é de 30% já se percebe uma queda nos resultados. A partir de 50% se torna dramático e quando a proporção é de 100% o resultado é fatal. São necessários 25.000 professores para ensinar os filhos dos refugiados, e pessoal é o que já faltava antes desta corrente migratória tão intensa, tanto na rede de ensino quanto nas creches e Kindergarten.

Conversando com assistentes sociais, terapeutas e professoras da minha região, elas relataram muita insatisfação em ter que lidar com esta situação emergencial. Falta pessoal (cerca de 20.000 professores estimados), faltam recursos, faltam cursos preparatórios, faltam seminários para troca de informação. Percebi muito envolvimento da parte delas, mas muitas preocupações também. Porém, também soube de relatos positivos, de crianças que estão se adaptando, que estão tirando boas notas, que já falam alemão. Mesmo sempre relembrando a 2a. guerra, a Alemanha viveu anos de muito conforto e despreocupação quanto a questões básicas. Talvez o momento atual esteja trazendo de volta sentimentos mistos quanto a perder o controle sobre uma situação.

Um jovem sírio, por exemplo, chegou aqui desacompanhado e inicialmente ficou acomodado junto a maiores de idade. Posteriormente foi removido para um SOS-Kinderdorf, onde ele se sentiu mais à vontade, começou a fazer progressos no alemão e pôde iniciar as aulas na escola normal. É raro jovens serem colocados para viver em uma família (Pflegefamilie), por conta da idade, da dificuldade com a língua e diferenças culturais. Um tutor do estado tem que ser designado para se responsabilizar pelos menores desacompanhados aqui.

Entre as crianças há muitas que não foram alfabetizadas, o que não é de se admirar, já que o país onde moravam estava em guerra. Em testes de matemática e ciências, os resultados de alunos da 8a. série também deixaram a desejar, fazendo crer que o nível de conhecimento nestas matérias é muito básico. Vai ser bastante complicado de nivelar o conhecimento das crianças refugiadas, exigindo investimento por parte dos professores e apoio de voluntários.

Apesar dos acontecimentos na noite de Reveillon em Colônia, e da revolta em Sachsen contra os estrangeiros, enxergo como solidária a postura de muitos alemães. Os alemães doaram 5,5 bilhões de euros a organizações e a igrejas em 2015, revelou um estudo divulgado pelo Conselho Alemão de Doações nesta terça-feira (01/03). Esse valor foi o maior registrado no país desde 2005 e representou um crescimento de quase 12% no volume de doações em relação a 2014. Além de doações financeiras, os alemães também prestaram trabalho voluntário. Quase 47% da população do país se engajou em prol dos refugiados. Aproximadamente 31,8 milhões de alemães contribuíram com dinheiro, objetos e roupas, ou tempo para organizações de apoio a migrantes.

Há iniciativas de apoio aos refugiados em praticamente todas as cidades alemãs. Há grupos no facebook, páginas na internet linkadas aos sites da prefeitura das cidades. Quase toda a ajuda é bem-vinda. Basta fazer contato com as organizações. Se tiver interesse, busque por Flüchtlingshilfe e o nome da cidade em questão.

Fontes

Schulministerium Nordrhein-Westfallen

Faz – integraçao nas escolas alemas

Deutsche Welle – debate alemão sobre refugiados

Deutsche Welle – Doações

Correiobraziliense.com.br

Welt – Kindergarten – faltam vagas

BAMF

Sistema de ensino não padronizado

A Alemanha é uma federação composta de 16 estados. Cada estado tem autonomia sobre a legislação e diretrizes da sua rede de ensino, portanto há muitas diferenças de currículo e organização, bem como duração da vida escolar. Além disso, as próprias escolas dispõem de uma certa autonomia, como por exemplo, quando se inicia o aprendizado de uma segunda língua estrangeira. Em alguns estados, a introdução do inglês no ensino fundamental pode ocorrer já na primeira série, enquanto em outros somente na terceira série. Em alguns estados, o ensino médio tem duração de oito anos, enquanto em outros são necessários nove anos.

Uma mudança com a família de um estado para outro, dentro da Alemanha, pode ter sérias implicações na adaptação dos filhos em idade escolar.  O calendário de férias escolares é regulado com um esquema de rodízio, de forma que todos não saiam de férias ao mesmo tempo. A ideia é boa, porém, há uma grande desvantagem, quando uma criança muda de estado justamente após a conclusão de um ano letivo.

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Exemplos

Uma criança muda no verão de 2016, de Niedersachsen para a Baviera.
O resultado: Férias de 23/06 até 12/09. Quase o dobro das 6 semanas regulares de férias.

Uma criança muda no verão de 2016, de Baden-Württemberg para Sachsen.
O resultado: Férias de 28/07 até 05/08. Uma semana de férias?

Uma estudante teve que se mudar com a família de Schleswig-Holstein (G9) para Baden-Württemberg (G8), quando iria cursar a 7a. série do ginásio. No norte da Alemanha, a cadeira de Latim  é iniciada como segunda língua estrangeira, na 7a. série, em alguns ginásios. Em Baden-Württemberg, os alunos aprendem Latim já na 5a. série. Ela precisou aprender por conta própria os dois anos de latim que lhe faltavam.

latein

Um estudante de Baden-Württemberg, que havia finalizado o ensino fundamental lá, e tinha recebido uma recomendação para entrar no Realschule, se mudou com sua família para a Baviera. Porém, o Realschule na Baviera, para o qual ele se candidatou, exigiu  uma recomendação para ginásio. O garoto acabou parando num Hauptschule, na Baviera.

Hoje em dia, é bastante comum que firmas grandes exijam muita mobilidade dos seus funcionários. Para estas famílias caixeiras-viajantes, conseguir lidar com as diferenças de currículo, tempo de férias e duração dos cursos  pode ser um verdadeiro quebra-cabeça que acaba tendo que ser encarado pelos filhos. O estado da Baviera, por exemplo, faz inúmeras exigências, tanto que algumas crianças são obrigadas a repetir de ano, quando vêm de outros estados, mesmo com boas notas.

O sonho de uma prova centralizada de Abitur ainda é distante . A média final depende do estado onde ela foi obtida. Um dois na Baviera, por exemplo, o estado com o melhor ensino, segundo pesquisas, não equivale a um dois em Thüringen. E porque a prova não é centralizada? A resposta se relaciona à tradição de cada estado quanto ao currículo oferecido, ou seja a autonomia que os estados têm, nesta questão, acaba tendo consequências sérias para os próprios estudantes.  Conseguir uma vaga na Universidade do outro estado, com uma média não tão bem vista na Alemanha, pode ser uma tarefa árdua.


Spiegel – Schulwechsel-nach-Umzug

Calendário de férias escolares

 

Problemas com a caligrafia

Muitas crianças têm problemas para escrever à mão, na Alemanha. Segundo uma pesquisa, se trata de mais de um milhão de crianças. Cerca de 23 porcento dos pais entrevistados alegaram que os filhos têm dificuldades em escrever tranquilamente por mais de 30 minutos.

caligrafia

O presidente da feira Didacta, para qual a pesquisa foi feita,  Wassilios Fthenakis, se preocupa com a questão, já que a escrita à mao tem enorme importância no desenvolvimento motor da criança. Uma pesquisa junto a 2.00 professores, em 2015, confirma que metade dos meninos e um terço das meninas têm problemas com a caligrafia. Eles nao escrevem com facilidade e a letra é difícil de decifrar. Mais da metade dos professores de escolas secundárias observaram que 40% dos alunos conseguem escrever por mais de meia hora sem reclamar de dor ou câimbra nas mãos e nos dedos.

Uma iniciativa foi fundada, justo para este fim: Initiative Aktion Handschreiben 2020, visando melhorar a qualidade da caligrafia das crianças, tornando-a legível e clara. Enquanto isso, pais e mães podem estimular crianças em fase pré-escolar a desenhar, fazer pequenos exercícios de treino, integrando esse tipo de atividade na rotina diária da criança. E já na primeira série escolar, motivar a criança a escrever pequenos textos, como cartões postais, cartinhas para algum parente, historinhas curtas, criar quadrinhos com os próprios desenhos, ou desenhar com giz na calçada ou quintal.

Fonte: Zeit