Parto Domiciliar da Karla

Há três anos nasceu nosso primeiro filho em uma clínica. Optei por receber uma anestesia e com isso seguiram uma série de intervenções médicas terminando em fórceps e manobra de Kristeller. Essas e o desejo de confiar mais no meu corpo e no meu bebê foram minhas maiores motivações pra optar por um parto domiciliar na segunda gravidez.

Bellypaint
source Wikipedia

Hoje o despertador tocou como de costume às 7h da manhã e logo em seguida senti a primeira contração. Brinquei um pouco com o L. ainda na cama como de costume e descemos pra começar a rotina da manhã antes de irmos pra creche: preparação do café da manhã, sentar à mesa, vestir o L. e sair pra creche. Minha mãe me perguntou como eu estava me sentindo e comentei que estava tendo já umas contrações consideráveis, mas nada demais. Poderia ser alarme falso. Deixamos o L. na creche, fomos ao supermercado, à padaria e à farmácia. Em alguma hora entre o supermercado e a ida à padaria começamos a verificar o quão espaçadas estavam as contrações. Em média uns 10 minutos entre uma e outra. Viemos pra casa e liguei pro S. (meu marido): “só pra avisar que estou tendo contrações a cada 10 minutos, mas pode deixar que te ligo quando achar que está na hora de você vir do trabalho”. Eu e minha mãe comemos algo com calma, guardamos as compras e enquanto a mamãe cuidava do almoço eu ainda passei uma vassoura em casa.
S. mandou uma mensagem pra saber como eu estava: “as contrações estão vindo agora a cada 6 minutos, acho que você pode pegar o trem de 15:48h” (eram 12:30h). “Posso ir antes?” ele perguntou. E eu disse que claro que sim, como ele preferisse.
Tive duas vezes uma dor de barriga forte e eu sabia que meu corpo já estava se preparando pra estar “vazio” na hora do parto. Também tinha sido assim no parto do L. Mamãe foi buscar o L. na creche e eu fui fazer meu exercício do Hypnobirthing. Às 14h foi a consulta de praxe da parteira, já agendada há uma semana. Ela ficou muito feliz de saber que o bebê estava a caminho, eu estava com 3 cm de dilatação. Ela iria em seguida fazer uma outra visita, mas estaria bem perto, quando eu ligasse ela viria, já que poderia demorar ainda.
S. chegou quando a parteira ainda estava em casa e começou a ajeitar tudo. Desceu com os apetrechos pro parto, subiu com a banheira que alugamos… minha mãe foi à pracinha com o L. a nosso pedido e eu fui tomar banho. Me deitei e tive uma contração tão intensa, que pensei por 1 segundo que fosse morrer. As contrações fortes a ponto de eu ter que usar técnicas de respiração começaram em média as 13:30h, mas bem intensas mesmo só as 14:45h. Era a essa altura 15:10h e eu estava usando a bola de ginástica pra suportar a intensidade das contrações. S. ligou pra parteira “acabe de fazer a visita com calma, mas por favor não vá mais pra casa, venha direto pra cá porque as contrações estão muito intensas”. Tive 3 contrações na bola e resolvi ir ao banheiro. Voltei pra bola e tive mais uma. Fui ao banheiro de novo porque sentia que precisava ir ao banheiro. Foi tão intensa que tive que me pendurar no aquecedor e gritei pelo S. Ele entrou eu o abracei forte, gritei e pedi pra ele sair de novo. Ele ligou pra parteira: “venha rápido!”. Veio mais uma contração. Peguei lá embaixo e senti a cabeça. “Amori vem rápido, o Nico está nascendo!” gritei. S. veio, eu tinha uma necessidade incontrolável de empurrar, sentia como se tivesse rasgando tudo. Uma sensação desesperadora. Em uma contração a cabecinha do Nico estava de fora, S. segurando-a nervoso e me apoiando “respira fundo, respira, empurra!”. Mais uma contração veio, eu gritei tamanha a intensidade e o Nico deslizou pros braços do S. Eu estava no lavabo da nossa casa. Durante a ultima contração apenas que a bolsa rompeu. S. ligou pra parteira “venha rápido que ele já nasceu!”. Ela já estava praticamente na porta de casa, assim como minha mãe e o L., que escutaram meu grito e logo em seguida o primeiro choro do Nico. S. me perguntou se eu podia segurar o Nico pra ele abrir a porta pra parteira e pediu pra minha mãe e L. saírem novamente. Nico estava meio azulado e S. estava preocupado, mas logo ele ficou rosinha e a parteira disse que era normal por conta da rapidez com que tudo aconteceu.
Fui pra sala, a parteira colocou o Nico nos meus braços e esperamos o cordão parar de pulsar. Minha mãe e L. voltaram, ficaram emocionados com tudo o que estava acontecendo. S. cortou o cortão umbilical e ficamos a espera da placenta. A segunda parteira chegou. Depois de 1,5h de espera e já de algumas tentativas de que a placenta saísse de forma natural, as parteiras estavam preocupadas. Depois de 2h de espera eu teria que ir pra clínica, por risco de infecção. Elas decidiram me dar uma injeção com um calmante pra tentar fazer com que eu relaxasse mais e que a placenta consequentemente saísse. Quando a agulha estava a poucos milímetros do meu braço, tive uma contração e a placenta saiu. Que alívio! A essa altura Nico já tinha mamado, a parteira me auxiliou a tomar banho, preencheram umas papeladas necessárias e iniciaram a primeira consulta (U1 na Alemanha). Nico pesa 3.260g e mede 51cm. Não nasceu como planejado na sala de casa ao som de músicas relaxantes, a luz de velas e na banheira quentinha, mas foi perfeito como foi. E inesquecível. Depois comemos todos juntos na sala, agradeci muito as parteiras por ter tido essa chance de confiar no meu bebê e no meu corpo ❤️ agradeci muito ao meu marido por ter sido tão incrível e por ter decidido vir mais cedo pra casa e agora estou aqui deitada na nossa cama compartilhada no meio dos meus dois meninos, guardando essa experiência pra sempre em forma de palavras.

 

Então eu digo pra todas as mulheres: somos capazes! Nosso corpo é incrível, nossos bebês são incríveis! Confiem em vocês ❤️

Experiências com parteiras

Este texto surgiu a partir de uma discussão no grupo Mães Brasileiras na Alemanha, no facebook. Uma das participantes pediu que as mães contassem suas experiências e dissessem o que lhes fez falta e o que gostaram durante o parto e durante o acompanhamento por parteira em casa. As experiências são bem diversas, não só porque cada parto e grávida ou mae e bebê são únicos, mas também porque as profissionais têm backgrounds diferentes e personalidades distintas.

Na Alemanha, a parteira, chamada de Hebamme, é a profissional responsável pelo pré-natal, parto normal e pós parto. Normalmente o serviço dela é pago pelo seguro de saúde.

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Aninha

Pra mim pessoalmente, a Hebamme do hospital que eu tive agora, quando minha filha nasceu, foi super meiga, bem atenciosa, vivia me abraçando, falando palavras de apoio.. E quando eu estava ali morrendo de ódio do mundo (rsrs), ela me abraçava… E sério, eu amei o perfume dela.. Era algo bem delicado, de flores ou assim… Levei depois umas flores para ela.
A Hebamme que veio aqui para casa já foi totalmente o contrário… Muito fria, deu pra perceber que para ela era só um trabalho. Não me senti bem acolhida. No primeiro filho eu fiquei com muitas dúvidas, de mãe de primeira viagem, e tinha receio e até vergonha de perguntar…. Quando eu perguntava algo, ela só respondia algo básico e não tentava entrar em uma conversa comigo…. Faltou o calor humano, nas duas Hebammen que tive aqui em casa…

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Elisangela 

O que gostei da minha: disponibilidade de vir em casa com extrema rapidez e responder mensagens pelo WhatsApp. (Tudo pago, claro, inclusive as mensagens vem na conta, hehehe)

O que não gostei: falta de proatividade em dar informações.
Eu comentei duas vezes sobre as cólicas e depois de perguntar claramente, se haveria algum remédio, ela indicou.
Tipo ela é um poço de informação, mas não sai entregando o ouro assim.

 

Gabriela 

Quanto à amamentação, as Hebammes aqui têm tendência a fazer a gente completar com leite artificial. Eu tive que fazer uma guerra. Meu resguardo tinha tudo pra ser perfeito, porque minha filha é super tranquila e dorminhoca. A adaptação com ela foi tão natural que parecia que eu já tinha ela já. Porém a Hebamme disse pra completar com leite.  Nossa, quase destruiu meu casamento, porque meu marido me xingava pra completar e eu recusava! E foi ótimo porque o pediatra depois de um mês disse que não precisava que ela tinha engordado 1220g e que o mínimo era 600 gramas, então ela estava ótima. Aí depois ficou tranquilo, mas perdi aquele primeiro mês que poderia ter sido super tranquilo e foi tenso. É isso. Toda mulher consegue amamentar e precisamos de incentivo!

Hebamme não entendeu que minha filha não mamava de 3 em 3 horas e então ela queria que eu acordasse a minha filha. Aí eu tentava acorda-lá mas nada dela acordar. A Hebamme disse que não era normal e eu entrei em pânico. Só depois percebi que não tinha nada de errado nisso. Que existe essa tal de livre demanda. Aí fiquei tranquila.

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Karla 
Pontos que adorei na minha Hebamme:
-me deu bastante apoio me elogiando sempre o que me fortalecia, dava aquela sensação de estar fazendo o certo
-me deu bastante apoio psicológico durante o puerpério
-me ensinou logo na segunda visita a amarrar um Tragetuch ❤️
-quando tive um Milchstau cuidou intensamente de mim, me ligava pra saber como eu estava

O que poderia ser melhor:
– achei que ela cuidou mais de mim do que me deu dicas com o bebê
– senti falta de mais apoio quanto as cólicas, ela disse que era normal, não adiantava fazer nada, aí eu mesma pesquisei técnicas de massagem e tal
– mais pro final começou a faltar às visitas e nem se desculpava.

 

Natalia

Eu tive uma Hebamme (para antes e depois do parto) maravilhosérrima que tem um lugar muito especial no meu coração 💜. Sem ela eu tinha enlouquecido de vez quando descobri a gravidez (já com 16 semanas) e teria sido muito mais difícil lidar com o bebê recém-nascido em casa (cuidados, higiene, sono, amamentação…) Ela ainda nos traz muita segurança e temos com ela uma relação de parceria muito boa 💜.

A Hebamme que deu o curso de preparação de pais para mim e para o meu marido também foi ótima e em dois dias mudou nossa perspectiva em muitos aspectos.

A Hebamme que me acompanhou durante o parto no St. Joseph em Berlim também foi ótima e o apoio dela foi muito importante pra mim num parto que eu nem gosto de me lembrar.

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Juliane 

Eu não tive uma boa experiência com a minha Hebamme, mas acho que é extremamente importante, principalmente quando o trabalho é bem feito! Era isso que eu esperava… Bom, o meu pós parto foi conturbado, meu filho nasceu prematuro( 34 semanas) e ficou 17 dias internado. Recebi uma visita antes do parto, avisei no dia do nascimento e ela pediu para eu ligar novamente quando ele tivesse alta. Eu tive muita dor pélvica, talvez porque não fiz repouso, na verdade o meu filho nasceu e eu não descansei nem 1h. Fiquei 2 dias no hospital, ele estava em outro prédio, então caminhava para vê -lo. Voltei para casa sem ele, a minha casa ainda não estava pronta, mudei pouco antes do parto e eu fui atrás das coisas para o bebê e para terminar a casa… Tudo isso a poucos dias antes do Natal. O hospital não era perto de casa, mas eu ia todos os dias vê-lo, tentei amamentar, tirava leite, mas com todo o estresse meu leite era pouco, quase nada. No dia da alta, 30.12, a pediatra desaconselhou a amamentação, ele continuou com a fórmula para prematuro. Vim para casa, avisei a Hebamme e ela veio nos visitar uns 3 dias depois… Meu filho era pequeno, bem pequeno e ela parecia ter medo de pegar. Ela até tentou me encorajar a amamentar, o meu leite aumentou, mas eu era só medo! Não amamentei… O tempo passou e no dia da última visita ela me deixou em pânico. Disse que eu devia ir ao pediatra urgente porque o meu filho podia estar com uma alça intestinal exteriorizando… Ele tinha uma hérnia umbilical, o q é bastante comum em prematuros. Resumindo, eu precisava de alguém forte ao meu lado, que me fizesse sentir amparada, mas não tive… Já as Hebammes do hospital, que fizeram o meu parto, foram sensacionais. Sem elas eu não teria conseguido!!!

 

Ingrid 

Tive meus dois partos no hospital e as duas Hebammen foram demais. Falaram conosco em inglês o que nos ajudou muito, foram atenciosas e realmente me passaram tranquilidade e confiança. Uns amores, já a que me atendeu em casa me ajudou em algumas coisas mas não tanto quando deveria, chegava em casa sempre afobada parecendo sempre não ter muito tempo (o que deve acontecer mas não precisa demonstrar tanto, né?).
O que acho que mais queremos quando estamos passando por isso é atenção e empatia.

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Silvana 

Bem, tem a Hebamme do parto e tem a do pós parto, certo? A do meu parto, foi beeeem mais ou menos. Senti muita falta de informações, dizer o que estão fazendo, ou mesmo de dar um auxílio no que fazer, porque na hora do “vamos ver” não tem curso que resolva. MAs aqui na alemanha, ao menos aqui no leste, onde moro, é tudo meio assim mesmo, os médicos não explicam nada, só saem fazendo, e se questionados ficam bravos, como foi no meu caso, fiquei com placenta no útero e meu ginecologista ficou furioso, ele é do leste, e quando voltamos no hospital pra fazer a curetagem, questionamos a médica, e ela ficou toda bravinha, mas enfim, faz parte! Já a Hebamme que veio em casa foi formidável, amei tuuuudo, sem ela não sei como teria sido. Ela conversava comigo, quase que uma psicóloga, cuidava da minha filha, e me dava muitas dicas, enfim, foi maravilhosa.

 

Bárbara 

Sou doula, já moro há 8 anos aqui na Alemanha e tive minhas duas filhas aqui. Minhas parteiras tem um lugar muito especial no coração da minha familia! Minha primeira nasceu num hospital antroposófico em Herdecke e minha parteira era “Beleghebamme“. Já nos conhecíamos do acompanhamento do pré-natal. Chegou a hora do parto, liguei pra ela e nos encontramos na sala de parto. Não consigo imaginar dando a luz com uma pessoa estranha, num momento tao íntimo! Há 1 ano e 3 meses nasceu minha outra filha, Luma, aqui em casa. Tive outra parteira, já que moramos em outra cidade (perto de Göttingen). Foi um parto lindo lindo, calmo, seguro! E o interessante é que as minhas duas filhas nasceram 18 dias depois da data prevista pelo exame. Mas graças às essas 2 parteiras, pude esperar, receber muita confiança no meu corpo e no tempo das minhas filhas. Foram experiências maravilhosas e tenho certeza de que muito do que pude viver foi graças a essas mulheres, com suas confianças, profissionalismo e experiencia com mulheres (e não só com numeros e máquinas e pesquisas)! E foi por ter tido uma experiência tão positiva no primeiro parto, que fiz minha formação como doula. Por isso meninas, quem morar perto de Göttigen ou Hildelheim (estado de Niedersachsen), me escrevam! Estou à disposição. Minha página está quase pronta, por isso ainda não divulguei aqui.

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Gabi Bu

com uma Hebamme que nasce, nasce uma mãe mais confiante e segura💗 fico muito feliz pela sua escolha! Minhas Hebis foram as pessoas mais importantes na minha vida durante o resguardo. A primeira me ajudou muito depois de um parto traumatizante: cesariana depois de 3 Dias induzindo😢 a experiencia foi muito triste por que queria dar o melhor começo de vida pra minha filha, ou seja, o parto normal. Não conseguia acreditar que aquilo tinha acontecido comigo. Todos falavam “o que importa é que vocês estão bem”, ninguém entendia o que era se sentir fracassada por não poder trazer o proprio filho ao mundo😢 minha Hebi foi a única que reconheceu minha dor e sempre serei agradecida a ela por isso.
As minhas Hebis do segundo parto (domiciliar) foram minhas heroínas. O que mais gostei foi que elas se mostraram super confiantes e me deram muita força.

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Bruna 

Trabalhar com mães, ainda mais gestantes e puérperas, exige uma disponibilidade e delicadeza especiais.

Eu tive contato com 4 Hebamme diferentes nas minhas duas gestações, além das que fizeram meus partos no hospital universitário. Na primeira gravidez, fiz cursos de preparação para o parto com elas (eram uma equipe de duas, que algum tempo depois que meu bebê tinha nascido, se separaram) e para mim foi muito bom, pois sou médica e vinha cheia de medos do sistema de atendimento obstétrico alemão. Mas no puerpério, estressei com elas. Uma delas, a que vinha todos os dias me ver, me encheu de cremes e acessórios para amamentação (eu estava sofrendo muito com Milchstau, mastite, rachadura, fissura), Vinha 2 vezes ao dia e falava PELOS COTOVELOS. Era algo massacrante, até porque minha fluência no alemão não era lá essas coisas na época. A outra era mega natureba e me recriminava e julgava quando eu usava alopatia (remédio para dor, por ex.) Meu parto foi um pouco difícil, fizeram Kristeller e eu tive que voltar ao hospital depois com suspeita de costela quebrada). Uma coisa em ambas que me incomodou demais foi que ignoravam sumariamente minha mãe e não tinham nenhuma sensibilidade para as nossas diferenças culturais. Queriam impor suas crenças e métodos sem se importar em saber se eu faria ou desejasse algo diferente. Um exemplo: o primeiro banho, que minha mãe estava doida pra dar e a Hebamme ignorou o fato, pegou meu filho e deu banho sem nem dar tempo de dizermos alguma coisa… Porém elas sempre me pareceram muito boas tecnicamente.

Minha segunda gravidez foi agora, meu filho está fazendo 2 meses hoje. Escolhi outra Hebamme para me acompanhar devido aos problemas que relatei acima. Eu também queria uma que fizesse acupuntura e elas não faziam. Resolvi arriscar com outra. A princípio ela me pareceu ok, mas no puerpério descobri algumas deficiências técnicas mesmo. Ela nem examinou direito meu bebê e solicitou que eu fosse ao pediatra dosar bilirrubinas, quando a icterícia dele era super leve. Um stress desnecessário. (Eu acabei indo porque ela estava fazendo questão e eu não queria confusão com Hebamme de novo, mas também principalmente porque eu tinha outro assunto para discutir com o pediatra.) Ela também não diagnosticou uma candidíase mamária que eu tive e ficou meio ofendida quando eu fui ao médico (que também não sabia o que era – quem fez o diagnóstico fomos meu pai, tb médico, e eu mesma.) Em terceiro lugar, ela ficou bravinha porque eu, com mastite e tomando antibiótico, em vez de usar Quark, fiz compressa gelada. Chegou na minha casa super brava, dizendo que se não fosse para eu seguir as orientações dela, que então ela não viria mais. Tipo louca. Eu simplesmente disse: então não venha mais. Aí ela ficou mais p*** ainda. Foi BIZARRO. Depois disso, encontrei uma Hebamme EXCELENTE, que, além de muito competente tecnicamente, tinha um diferencial enorme: ela é também Stillberaterin certificada (fez o curso do ICBLC). … Tb achei que ela foi muito mais respeitosa comigo, em vez de tentar impor sua visão, como as outras fizeram.

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Fernanda

Eu amei tanto a minha Hebamme. Ela cuidou MUITO de mim e do meu filho. Tive uma mastite grave e foi ela que diagnosticou, quando eu achei que só estava gripada. Ela era o meu oposto em estilo de vida. Pra dar alguns exemplos, ela só aceitava um copo de água quente (tipo, chá de água), nao tinha TV em casa e nem microondas. E mesmo assim nós duas nos conectamos, Ela é uma das pessoas mais agradáveis e amorosas que eu conheci. Ela e minha mãe se adoraram, riam e conversavam do jeito que dava, misturando inglês com o pouco de espanhol que ela falava. Ela ouviu sobre os meus medos de parto, e me ofereceu tudo que é conforto: massagens, florais, acupuntura… ela cuidou do meu corpo e da minha mente. Fiquei muito triste quando ela parou de vir, senti uma perda.
Logo que fiquei grávida da Camila, liguei pra ela. Ela ouviu minha voz e já disse: você está grávida!!! Ficamos muito felizes com a chance de convivermos de novo. Com a Camila eu tive dificuldade pra amamentar, meu seio feriu e eu demorei pra acertar a pega. Ela me dizia que qualquer mãe já teria desistido, mas que ela sabia que eu nao desistiria. 🙂 E me ajudou de todas as maneiras que ela pode. Mais uma vez ela cuidou do meu corpo e do meu emocional.
Eu sabia que nao teria mais filhos, e fiquei ainda mais triste quando nos despedimos. Eu chorei e ela se emocionou, e chorou junto comigo. ❤
Acho que se eu encontrar ela na rua um dia as duas vão fazer aquele escândalo de alegria, bom, pelo menos eu vou! 😀

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Vanessa 

Eu tive contato com 2 Hebamme. Vou começar com a do hospital no parto. Ela foi simpática, mas não foi presente. Não que eu esperasse que ela ficasse o tempo todo comigo, porque eu sei que isso é impossível, mas nos momentos de dores, eu não tive nenhum auxílio dela de como eu poderia aliviar as dores, ou melhor posição. Achei ela muito insegura e essa insegurança me incomodou muito. Eu tive um trabalho de parto bastante longo, durou 24 horas. O médico teve que induzir, porque a minha filha já estava demonstrando sinais de stress. Com a oxitocina, eu não consegui mais controlar as dores e eu pedi uma PDA, o que eu não queria. A Hebamme só chegou perto de mim para perguntar se eu tinha certeza, não me ofereceu nenhuma outra alternativa para aliviar a minha dor. Depois de 23 horas de parto, ela fez um toque e disse que a minha filha não estava na posição correta e que eu teria que levantar da cama pra fazer exercícios físicos para a minha filha subir e descer na posição correta. Eu estava exausta e pedi que ela chamasse a médica porque se fosse assim eu preferiria uma cesária. A médica chegou, fez o toque e disse que estava na posição correta. Eu queria matar a Hebamme. Um estresse desnecessário. É horrível você não ter confiança em quem está fazendo o seu parto. Ah, ela ainda me deu um corte quando eu falei que não queria. Eu só ouvi a tesoura cortando. Não tinha a menor necessidade, a minha filha era super pequena.

A minha Hebamme pós parto, eu conheci ela quando estava com 15 semanas de gravidez. Eu já estava sentindo bastante dor nas costas e ela fazia massagem em mim 1 vez por semana. Mais para o fim da gravidez, ela resolveu fazer uma massagem mais forte. Eu falei para ela que estava. Sentindo muita dor e ela só falou para eu continuar respirando. No dia seguinte eu sentia dores na barr e lombar e estava cheia de hematomas. Não fiz mais massagem.

Viemos para casa 4 dias depois do parto e estava tendo dificuldade com amamentação. No início ela só me mostrou algumas posições para amamentar. A minha filha estava com a taxa de icterícia no limite e teve um dia que ela dormiu 5 horas seguidas e não acordava por nada. Eu liguei para a Hebamme e ao invés dela me explicar que icterícia era assim mesmo, ela mandou eu correr para o hospital. Chegando lá, tomei uma bronca da médica por estar amamentando, pq a minha filha estaria muito fraca para sugar e que eu iria acabar matando a minha filha. Nem preciso dizer o quanto isso impactou na amamentação.

Eu queria muito amamentar a minha filha e tinha leite, mas a pega estava incorreta e por isso o bico dos meus seios queimavam e eu sentia muita dor. Ao invés dela corrigir a pega, ela me perguntou se eu tinha tomado magnésio até o fim da gravidez, e eu disse que sim. Ela disse que isso era o motivo por eu estar sentindo dor, porque eu não poderia tomar até o fim da gravidez e me receitou tomar 10 comprimidos de magnésio diluídos em água de 1 vez só durante 10 dias, que não adiantou nada. Nesse meio tempo, ela trouxe uma sonda da medela e falou que isso ia me ajudar a amamentar. Eu quase morri quando ela colou e depois tirou a fita que cola a sonda do meu peito, que já estava assado. Ela trouxe uma mamadeira da medela, ela trouxe tudo quanto era novidade, livro de relactaçao enquanto meu peito jorrava leite?! , mas nada de corrigir a pega, que ela dizia que estava correta. Por fim, só consegui amamentar 3 semanas…e veio a culpa, o sentimento de incapacidade, derrota.

Um belo dia ela decidiu dar banho na minha filha. Eu tinha comprado um balde e uma banheira. Ela tentou dar banho na minha filha no balde e a minha filha gritava e rodava igual a um peão. Não satisfeita, ela mandou eu encher a banheira da minha filha e falou que ia tentar na banheira pq ela queria mostrar o quanto o banho acalmava o bebê. A minha filha só gritava e eu falava pra ela: eu acho que já chega, já tá bom. E ela insistia. Meu marido pegou ódio mortal dela, não só pelo episódio do banho, mas porque ela reclamou com ele que ele estava muito ausente e que a prioridade dele deveria ser eu e a nossa filha. Imagina, meu marido tinha saído para resolver a papelada do Elterngeld e Kindergeld.

A Hebamme nunca chegava na hora combinada. Ela sabia que eu não saia de casa e eu fazia a minha rotina em função do horário que ela marcava. Toda mãe sabe que a hora que o bebê dorme, é um momento de ouro. Ela chegava na hora que a minha filha dormia e aí acordava a minha filha, tirava a roupa para pesar, ia embora e me deixava lá com a minha filha gritando. Estou grávida de novo e chamei outra Hebamme. Espero que dessa vez seja diferente.

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Deisy

Eu tive uma super sorte com todas as Hebammes que me ajudaram no nascimento da minha filha. Fiquei 5 dias internada induzindo o parto e elas foram maravilhosas. Percebiam minha angústia, o medo de ter que fazer uma cesária, o medo de o bebê não estar bem. Elas não foram apenas excelentes profissionais, elas foram humanas, faziam massagem, acupuntura, mimavam mesmo. Quando induzi com ocitocina, demorou muito para começarem as contraçoes, comecei a ficar nervosa, pois eu sabia que não poderia ficar muito tempo na sala de parto, se não funcionasse eu voltaria para o quarto e faria uma cesária. A Hebamme trouxe uma cama para meu marido, estávamos há quase 20 horas acordados, na expectativa. Ela então sentou-se ao meu lado e começou a fazer massagem na minha barriga. Eu adormeci e acordei uns 30 minutos depois com a bolsa rompendo. Tenho certeza que essa postura foi fundamental para que minha filha tenha nascido de PN. A Hebamme que me atendeu em casa também foi maravilhosa, me ajudou muito. Graças a ela e à Fernanda eu pude amamentar minha menina até os 2 anos, como havia sonhado.

Experiência de parto domiciliar na Alemanha

Gabriela nos conta com detalhes sua experiência de parto domiciliar, aqui na Alemanha.

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arte na barriga por Marina van Rotten – foto gentilmente cedida pela Gabi

Gostaria de compartilhar a experiência mais fantástica que vivenciei até hoje. Na última terça nasceu meu segundo filho. Não só nasceu: EU trouxe ele ao mundo, EU dei à luz. Ativamente, e não passivamente, com a ajuda do meu marido (que foi tão ativo que praticamente deu a luz junto 😂) e duas parteiras maravilhosas, nas quais eu confiei o tempo inteiro. Pelo fato de não ter tido nenhuma intervenção médica, ou seja, nenhuma anestesia, nenhum hormonio sintético, tive a sensação de trabalhar junto com meu filho. Sentia seus pézinhos o empurrando pra baixo e ele se virando pra achar sua melhor posição de nascimento. E eu o ajudei, cada contração na qual eu rodava meu quadril, relaxava minha pélvis, trazia meu filho pra mais perto de mim.

Se doeu? Doeu pra cacete! E vou ser sincera: se estivesse no hopital e depois das longas horas de trabalho de parto, me oferecessem algum tipo de anestesia ou analgésico, não sei se teria conseguido recusar a tentação. Estou feliz por ter tomado a decisão do parto domiciliar. Em nenhum momento pensei que estava em perigo ou achei que as parteiras não tinham a situação sob controle.

Por que estou compartilhando isso com vocês? Por favor, não iniciem um debate sobre “ser mãe melhor”, por que fez parto natural ou algo parecido. Cada uma toma sua decisão da melhor maneira possível, e ela está certa assim. Mas quero apoiar abertamente mulheres que tem interesse em parto domiciliar. Por que? Porque acredito que nós, mulheres, somos capazes disso. Que nosso corpo é feito fisiologicamente para isso e que por causa de um grande sistema obstétrico que se desenvolveu em volta do que é o parto, mulheres perderam a confiança em si, em seu corpo e do milagre que somos capazes. Se você que está lendo isso se sente assim e quer mudar isso, esse relato é pra você.

 

Idade e limite de tempo para esperar, sem correr perigo

Tenho 37 anos. Minha parteira já acompanhou gestantes até de 45 anos no parto domiciliar. Mas não era o primeiro bebê. Quanto ao ginecologista: ele não precisa dar autorizaçao, aqui você tem o ” direito de escolher onde vai acontecer o parto”. O problema é o seguro. A nova regra se chama ET+3 (data estimada do nascimento + 3 dias). Ela diz que três dias depois da data estipulada deve haver um laudo médico explicando que a gravidez está fora de perigo. E assim vai de 3 em 3 dias. Mas ninguém pode lhe obrigar a dar a luz no hospital. Hoje em dia, conheço várias mulheres que deram a luz sem acompanhamento médico ou de parteiras, ou seja, por opção sozinhas.

 

Como a filha mais velha da Gabi encarou o parto e todo o processo

É muito importante que seu filho tenha alguém que esteja ali só pra ele. Tipo um “Betreuung” individual (nota da editora: apoio de alguém com quem a criança tem uma relação estreita). Eu achei que não fosse ter problemas com minha filha estando presente, mas estava errada. Precisei do foco em mim mesma o TEMPO inteiro. Ela acabou indo para o Kindergarten e sua avó, que já tinha chegado no dia anterior, buscou ela e elas foram compra um presente pro bebê o que também foi ótimo: minha sogra ficou no background fazendo lanchinho pra galera e deu um suporte fantástico. Nunca mais vou falar mal dela! Risos

Hypnobirthing

Na minha opinião, o Hypnobirthing  é um Must pra quem quer fazer parto domiciliar! Principalmente na hora das contrações de parto / contrações de expulsão. A respiração em J me possibilitou que meu filho nascesse em 1,5 contração e entre as contrações ainda expliquei à minha parteira como tirar a foto com meu telefone da cabeça dele saindo. Sem Hypnobirthing não teria tido essa presença de espírito e nas contrações de abertura a respiração e o surfar das ondas também me ajudaram muito. Okay, muitas vezes queria mandar ondas, afirmações* e whatever pro quinto dos infernos, mas fiquei feliz de não ter feito.

Afirmações*:
No meu chá de bebê, as minhas amigas tiveram que escrever afirmações para mim que pendurei por toda sala. As que realmente usei no parto foram “essa contração (que acabou) não volta mais”, “cada contração traz meu bebê para mim”, “ich werde unendlich weit” do livro da Ina May Gaskin (outra Bíblia do parto domiciliar). Durante as contrações de parto foi it’s not pain, it’s power. Essa afirmação tem, apesar de não ser esotérica ou muito religiosa, muito a ver com espiritualidade na hora do nascimento e me elevou, mesmo que por pequenos milisecundos, ao estado de Deusa, que toda mulher é nesse momento. Essa afirmação vai ficar para sempre no meu coração!

*frases positivas de incentivo ou empoderamento

Aborto na Alemanha

Em tempos de zika e microcefalia, a discussão sobre a legalização do aborto no Brasil está mais uma vez em pauta. Atualmente, há muitos artigos interessantes sobre o tema, como o do Dr. Drauzio Varella, que diz “Aborto já é livre no Brasil. Proibir é punir quem não tem dinheiro” ou da Eliane Brum, que afirma “Ter ou não um filho é uma decisão individual, íntima, de cada mulher. Ao Estado cabe garantir que sua escolha seja protegida, em qualquer um dos casos.”

Tentarei aqui resumir como se dá a prática de interrupção de uma gravidez na Alemanha. A palavra aborto é Abtreibung em alemão. Porém, quando se fala em um aborto planejado, costuma-se falar na interrupção da gravidez, ou Schwangerschaftsabbruch.  Abrindo parênteses aqui: Abtreibung ou até Abort, menos usado, são termos populares. Interessante é que o aborto espontâneo é denominado Fehlgeburt, um parto que deu errado. Adoro estas particularidades da língua! Fecha parênteses.

aborto

A nova lei sobre aborto foi feita pelo Bundestag, em 1992, e permitiu a prática no primeiro trimestre de gestação sem necessidade de motivação, sendo apenas necessário acompanhamento psicológico e espera de pelo menos três dias depois da solicitação. A lei foi logo contestada por alguns estados alemães e o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha se posicionou a favor da proteção da vida desde a concepção, mas afirmou que não se deve punir o aborto cometido até à 12ª semana de gestação. Desde que a mulher passe por acompanhamento (para fazê-la desistir da ideia). Em 1995, o Estado aprovou uma lei que fez com que o aborto não fosse mais feito pela rede pública de saúde, exceto para mulheres de baixa renda.

Na consulta de aconselhamento num centro oficial, como a Profamilia, a mulher  recebe esclarecimentos médicos e sociais sobre as possibilidade e apoio para ter um filho, e ainda sobre os riscos da interrupção. Contudo, as mulheres não têm de justificar a sua decisão, caso optem por fazer um aborto. As despesas têm de ser arcadas pelas mulheres, mas só se estas tiverem rendimentos mensais superiores a cerca de 900 euros. Os custos para a interrupção giram em torno de 300 a 400 Euros.

Para que um aborto tardio possa ser executado, é necessário que haja uma indicação médica ou criminalística, ou seja, é preciso que fique claro que a gestante corre risco de vida ou que a gravidez seja conseqüência de uma violação.

Mesmo assim, há mulheres que preferem um outro caminho, para fazer a interrupção da gravidez, eventualmente até depois do primeiro trimestre ou por motivos que não possam ser justificados num aconselhamento do estado. Uma alternativa é se deslocar a outros países vizinhos, como a Holanda, onde os custos e as exigências são menores e a prática pode ser estendida até a 24a. semana de gravidez. Parece-me que o aconselhamento na Alemanha tendencialmente tenta dissuadir a mulher de sua decisão, e muitas não conseguem encarar as entrevistas. O aborto nao é considerado uma forma de anticoncepção, tampouco uma prática encorajada.

Aconselhamento e associações de auxílio a mulheres

Em Berlim, existem 61 centros de aconselhamento a grávidas, embora estejam também vocacionados para consultas de planejamento familiar e aconselhamento sexual. Por outro lado, proliferam associações onde as grávidas podem pedir apoio. Só na capital alemã existem mais de quatro mil instituções de carácter social, tanto estatais como não-governamentais apoiadas de forma privada, como a Rahel ou a Durchblick, muitas delas contra a prática do aborto.

A “Pro Familia” é uma das maiores instituições do país fundada em 1952, independente de influência política e religiosa, com sede em Frankfurt. Todos os anos recebe cerca de 200 mil pessoas e 185 mil jovens que precisam de ajuda e educação sexual. Numa reação à recente ideia do Governo alemão de Angela Merkel, que o aborto passe a ser pago por inteiro pelo grávida, a postura da instituição é muito clara.

“Se o encargo financeiro passar à responsabilidade das mulheres, isso vai colocá-las em situações difíceis e desta maneira não se reduzirá a prática do aborto”, afirmou Christina Schneider à Deutsche Welle. Aliás, posição partilhada pelos médicos, como disse à mesma rádio, Matthias David, do hospital Charité em Berlim.

Desconhece-se ainda quanto o governo poderá poupar, caso o aborto passe a ser pago, mas os defensores de uma nova lei, alegam que as verbas seriam utilizadas para incentivar mais a natalidade. Dá para sentirmos que o assunto é ainda muito polêmico, num país onde a imagem superficial é de que a prática do aborto seja corriqueira e aceitável. Nada é tão simples quanto parece.

Estatísticas

Segundo as estatísticas, a taxa de aborto cai continuamente, na Alemanha.

Em 2013 foram 102.800 abortos, representando 3,8 porcento menos do que no anterior. Em 2004, para cada 10.000 mulheres entre 15 e 49 anos de idade, foram 66 interrupções. Em 2010, o número caiu para 59 e, em 2013, foram 56. 74% das mulheres que abortaram, em 2013, tinham entre 18 e 34 anos de idade, 15% entre 35 e 39 anos, 8% tinham mais de 40 anos de idade. Entre adolescentes a prática também foi menos utilizada.

Entre os estados alemães, a prática é mais difundida em Nordrhein-Westfallen (mais de 20 mil casos em 2014) , estado com a maior concentração populacional do país, descontando as cidades-estado Berlim, Hamburgo e Bremen, seguido da Baviera (11 mil casos) e de Baden-Württemberg (9 mil casos).

Nem tudo é cor de rosa – Partidos de extrema direita protestam contra as clínicas de aborto

Para dar uma ideia de como o aborto aqui é tolerado e muitas vezes ainda discriminado, cito dois exemplos.

Em 2014, fundamentalistas cristãos e membros do AfD, partido de extrema direita alemão, fizeram campanha clara contra o aborto, dificultando a existência de clínicas em Baden-Württemberg e na Baviera. Em Stuttgart, por exemplo, o médico-chefe responsável por uma clínica grande, Dr. Stapf, enfrentou sérias dificuldades para conseguir alugar um imóvel, onde pudesse instalar sua clínica nova,  já que a antiga  teria que sair de um hospital conhecido. As próprias mulheres eram abordadas de forma agressiva na rua, próxima à clínica, por afiliados ao partido, para que mudassem de ideia. Há um ano, a clínica de Stuttgart foi fechada. Há muitas páginas na internet denunciando o trabalho deste médico, chamando-o de bárbaro, monstro etc.

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) se manifestou a favor da liberdade de expressão de um cidadão alemão que foi impedido de distribuir folhetos pró-vida em frente a clínicas de aborto. Os folhetos comparavam o ato de uma mãe matar o próprio filho no ventre materno ao holocausto dos judeus, promovido por nazistas. O tribunal continental também considerou legítima o ato do mesmo cidadão de publicar na internet a lista de todos os médicos locais que realizam abortos.

Indiscutivelmente a legalização do aborto na Alemanha foi uma conquista para as mulheres.  Podemos observar que a maioria dos países com leis flexíveis quanto ao aborto mantém os problemas econômicos sob controle e a população tem maior bem-estar. A posição da mulher nesses países também é melhor, a diferença salarial entre os sexos é menor e o nível educacional elevado, o que garante equilíbrio nas relações de gênero. Além de que a  influência religiosa sobre a saúde reprodutiva é reduzida nos países mais desenvolvidos. Agora é hora de torcer para que o Brasil siga na direção correta!

 

Fontes